De um beijo trocado entre o amor e a elegancia nasceu a ornamentação da camara nupcial do rei de Hespanha. O amor forneceu as lembranças delicadas, as apaixonadas galanterias, os objectos symbolicos; a elegancia, que é tanto maior artista quanto mais desleixada parece, distribuiu-os sorrindo, lançou-os como ao acaso, dispersou-os como se tratasse de espalhar uma nuvem de flores: brincando. D'esta allianca nasceu um idyllio em vez de uma camara, um palaciosinho feito de maravilhas dentro de um palacio feito de pedra; um ninho tecido de preciosidades para receber um par enamorado; dirieis que um poeta omnipotente conseguira realisar um{52} sonho de riquesa e felicidade architectando aquelles aposentos com pedaços de crystal e raios de sol.

As ideias mais tristes e mais terrenas tomavam alli uma encarnação phantastica. Nada mais atrozmente positivo que a lembrança de que o tempo foge com uma velocidade insensivel, de que nem com punhados de ouro se póde embargar-lhe o passo. Mas o amor, nos aposentos destinados á rainha Mercedes, até sobre os relogios soube poisar sorrisos, de modo que o tempo deixou de ser cruel alli. Era o amor quem devia avisar a rainha de Hespanha das horas que fugiam, mas com tal encanto obrigára o relogio a fallar, que certamente as horas pareceriam breves, muito breves. Sobre um pedestal de marmore branco, dois amantes enlaçados n'um beijo longuissimo, estendidas as mãos para um livro, que um Cupido de ouro abria, indicando uma phrase—Para sempre: esta graciosa pendula devia recordar a Mercedes, hora a hora, que o tempo fugia mas que o amor ficava. Para sempre, em vez de ser a cruel ameaça da eternidade, tornava-se uma promessa de felicidade ininterrompida. O leve rumor da pendula pareceria, de instante a instante, o rumor de um beijo: olhando para os dois que se beijavam sobre o pedestal de marmore, a rainha de{53} Hespanha acreditaria facilmente que o esculptor primoroso soubera animar o bronze.

A França mandára para alli, para aquelle édensinho principesco, quanto de maravilhoso as artes haviam produzido. O que os reinados de Luiz XV e Luiz XVI viram de mais assombroso, espalhou-o n'aquelles aposentos a mão de uma fada. A par das grandes obras da arte, as pequenas coisas galantes. O amor tem o seu tanto ou quanto de selvagem: quer engalanar-se com constellações de missangas. Os ramilhetes seccos, uma luva, um lenço eram alli as missangas do amor. Tudo aquillo pertencera a Mercedes: portanto era justo que tudo aquillo completasse o idyllio.

Na atmosphera, um suave conjuncto de aromas delicadissimos, subtis;—este perfume tenue mas penetrante que faz lembrar a respiração das coisas bellas.

A luz, nitida, mas discreta, sem os tons petulantes com que ella invade as alcovas burguezas.

O que quer que fosse de branda indolencia, de deliciosa preguiça na luz, nos moveis, nos perfumes. Quanto alli estava parecia viver, mas dormir. Era uma alvorada sem canticos, banhando n'uma serenidade narcotica a sua formosura.

Fóra, a contrastar com esta extranha placidez que esperava alli os noivos, a anciedade{54} do publico, o rumor das praças, o rodar das equipagens, o estrepito das fanfarras, o tumultuar de uma cidade em festa.

As damas da primeira sociedade preparando as suas toilettes enormemente ricas: só o vestido da duqueza de Santonia, costurado em Paris, valia onze contos de reis.

A princeza Mercedes, no palacio de Aranjuez, remirando, n'um encantamento de felicidade e de surpresa, os brindes maravilhosos que de toda a parte lhe mandavam: o rei, uma corôa de brilhantes, um pendant, de Froment Maurice, um bello camapheu antigo com uma allusão mythologica; Izabel II, um manto de velludo, estrellejado de ouro, acolchoado de arminhos; D. Francisco de Assis, uma corôa real constellada de diamantes, um raio de sol cinzelado em diadema.

Á volta da formosa hespanhola, que ia ser rainha, as suas novas damas de honor, as duquezas de Bailen e de Ahumada e a condessa de Villapaterna acercando-lhe, como n'um sonho féerico, todos esses brindes encantadores, todas essas maravilhas, que pareciam destinadas a uma noiva de ballada mediévica.