Cerca das sete horas entrou no salão a familia real para assistir a uma missa de corpo presente. Finda ella, abriram-se as portas de par em par, e Madrid invadiu a capella ardente.{108}
Os grupos paravam á beira do feretro, soluçantes e lacrimosos. Se a rainha Mercedes podesse vêl-os e ouvil-os, morreria da alegria de vêr a Hespanha identificada com o throno. Que tu, ó bella Hespanha das tradições cavalheirescas, és como um grande oceano cujas ondas se encapellam chocando-se. Luctas comtigo mesma, Hespanha, e a ti mesma te dilaceras. És o pelicano das nações, o Saturno da Europa moderna. Se um braço poderoso conseguisse, por entre sorrisos de brandura, imprimir um movimento uniforme ás tuas correntes revoltas, tu serias completamente feliz. E esse braço bem poderia ser o de Mercedes, que nos paizes cavalleirosos como tu, faz mais o sorriso d'uma mulher do que a espada de um conquistador. Mas essa bella hespanhola que te podera salvar, não teve tempo siquer de principiar a sua grande obra de ternura. Eil-a morta, amortalhada como uma pobre freira que baixasse ás catacumbas do seu mosteiro.
Depois das sete horas da manhã do dia seguinte, o cortejo funebre começou a desfilar pela praça do Oriente, calle de Bailen, e demais ruas de Madrid que conduzem á estação do caminho de ferro do norte.
O povo de capital das Hespanhas abria{109} respeitosamente longas álas para deixar passar esse prestito da morte. Um piquete de cavallaria, que o precedia, encontrava passagem franca. Um respeito profundo continha as impaciencias da multidão tão frequente n'estes lances.
Empós, uma banda marcial derramava sobre Madrid as notas plangentes de uma marcha funebre. A musica, como quasi sempre acontece, traduzia em todas as almas quanto ellas sentiam n'essa hora. E pela effusão das lagrimas, que era geral, via-se que em todas as almas pungia a mesma dôr.
Seguiam-se os timbaleiros e cornetins das regias cavallariças, e os respectivos criados, e empregados, de grandes fardas, e fumo no braço; os cavallos de passeio da rainha, roçagando crepes; os cavallos de estado; o estandarte da real irmandade; a cruz da capella real; capellães, musicos e cantores; gentis-homens e officiaes-móres, oito grandes de Hespanha, duques de Sexto e de Uceda, marquezes de Salamanca, de Benemejis, de Malpica, de Valdegrana, de Monistrol, o conde de Guaque; batedores, correios das cavallariças reaes, e, finalmente, tirado por quatro parelhas de cavallos negros, o coche funebre, ladeado pelo capitão-general de Madrid, Primo de Rivera, e seguido pelo{110} marquez de Santa Cruz, mordomo-mór da rainha, pelo notario-mór do reino e ministro da justiça, Calderon Collantes, pelo patriarcha das Indias. Este coche da morte, rodando vagarosamente, era recebido pelas lagrimas da multidão, cuja commoção subia de ponto, quando os olhos cahiam involuntariamente sobre o coche rico do rei, tirado por oito cavallos brancos, o mesmo coche que cinco mezes antes conduzia no regresso da Atocha o par enamorado atravez de uma chuva de flôres.
O corpo de alabardeiros, de uniformes resplendentes, a pittoresca guarda real, de elmos scintillantes, e uma força de cavallaria fechavam o derradeiro cortejo d'essa noiva mallograda.
No Escurial preparou-se dentro em poucos dias, pouco mais de um mez, o panthéon provisorio que devia receber as cinzas mortaes da rainha.
Encantadora simplicidade a d'esse tumulo!
Seis columnas de marmore branco sustentam o sarcophago, em cujas faces foram insculpidas sentenças biblicas, que relembram o passamento prematuro da rainha. Este singelo monumento occupa a primeira capella do corpo central da egreja, á esquerda do altar-mór, e junto á parede interior. Sobre o altar da capella,{111} uma tela notavel, attribuida a Zurbaran, representa a imagem de Nossa Senhora das Mercedes. Defronte d'este quadro, encimando quatro grandes sustentaculos de prata, relevam as corôas que outr'ora ornavam o sumptuoso tumulo de S. Francisco, o Grande.