Quando Affonso XII entrou em Hespanha para reinar, tinha aproximadamente vinte annos. Veio por mar, entregue aos caprichos da onda, porque um rei, desde{22} que principia a sel-o, precisa de se entregar cegamente ao destino. Mas, logo que desembarcou em solo hespanhol para tomar o caminho de ferro de Madrid, em vez de uma chuva de flôres, esperava-o uma chuva de balas. O desespero carlista queria enviar a D. Affonso XII uma saudação de morte. Mas o rei passou impunemente, e o carlismo continuou a debater-se nas vascas da agonia. Era uma serpente que se revolvia entre chammas.

Então a Hespanha viu sobre o throno um rei profundamente hespanhol—no animo e na physionomia. Um dextro torero, um valente caçador, um cavalleiro eximio. Figura esbelta, salerosa, rosto moreno, cabellos pretos, bocca expressiva, dentes alvissimos. Um adolescente de serenata, um trovador de vinte annos sobre um throno de seculos.

Para completar o typo peninsular, um coração amante. Toda a vida de um hespanhol está no amor ou no ciume. O rei amava. Facto verdadeiramente extraordinario e ousado: um rei amar! Para um principe de vinte annos, uma princeza de dezesete. Mercedes, sua prima, era uma creança idealisada pela formosura. O rei amava-a em segredo, com um culto sagrado. Adorava-a.{23}


ELLA

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III
ELLA

A princeza Maria de las Mercedes, filha do duque de Montpensier, Antonio de Orleans, e da infanta hespanhola Maria Luiza, irmã de Izabel II, realisava, pelo nascimento, uma seductora consubstanciação, o enlace de duas fascinações. Por seu pae, francesa, por sua mãe, hespanhola, ella reunia em si as duas nacionalidades que maior relevo dão aos encantos femininos. Juntai a graça francesa ao salero hespanhol, a alegria da França á vivacidade da Hespanha, juntai Pariz a Madrid, e tereis uma figura encantadora: Mercedes.

Ide aos parterres das Tulherias, que foi um jardim de principes, colhei uma rosa d'aquellas com que outr'ora a imperatriz{26} Eugenia enflorava os seus bellos cabellos, e deponde-a sobre uma fina jarra de Triana n'um palacio de Sevilha: havereis conseguido copiar a graciosa individualidade de Mercedes.

A França e a Hespanha começaram a disputar, á beira do berço da princeza, o direito de lhe conceder dons. Dou-lhe um raio de sol para os cabellos, disse a França. E eu os reflexos sombrios do azeviche, accrescentou a Hespanha. E da reunião d'estas duas dadivas nasceu a côr das tranças castanho-claras de Mercedes. Tratou-se de colorir-lhe as faces. Que façam inveja á perola, disse a França. Sim, mas os olhos pertencem-me, replicou a Hespanha; eu quero que os olhos sejam hespanhoes. Faces côr de mate; os olhos como os de Affonso, côr de noz. Era preciso animar a bella estatua. A França chamou Pariz, e disse-lhe: Derrama sobre o corpo d'essa gentil princeza as ondas d'esse fluido mysterioso a que em toda a parte se chama—a graça pariziense. A Hespanha chamou Madrid e disse-lhe: Temos n'uma só mulher uma princeza e uma hespanhola; extrae a mais fina essencia do teu salero e concede-lh'a. Animada a formosa esculptura, disse a França: Pertence-me; é neta de um rei francez. Perdão, contestou a Hespanha, é neta de um rei hespanhol.{27}