Eu venho de um tempo em que se dizia haver «elogio mutuo». Não era elogio, mas justiça. As cotações, especialmente no mercado das letras, andavam menos falsificadas. Ninguém chegava ao pé de um homem, de punhal na mão, com o intuito de assassinal-o, para o glorificar depois de morto.
Garrett estava no tumulo. Herculano fizera-se solitario em Val-de-Lobos. Castilho vivia em Lisboa e abria as suas portas a todos quantos mostravam paixão pelas letras. D'aqui veio o dizer-se que tinha Castilho uma côrte. Não a procurava elle; procuravam-n'o, sim, todos, velhos e novos, que desejavam encontrar uma atmosphera literaria em que podessem respirar á vontade.
Mas a differença do tempo estava principalmente n'isto, que não era pouco: ninguem, em casa de Castilho, nem dos seus, nem dos extranhos, se julgava maior que elle.
Por isso o respeitavam, medindo-lhe a grandeza, que fazia lembrar a das estatuas, porque sendo vista de perto tomava ainda maior vulto.
Era deliciosa essa casa de Castilho, onde a boa conversação literaria teve um templo, como não ha, nem póde haver outro. Não decorria ali uma hora sem que se tivesse lucrado alguma coisa: aprendia-se sempre. Eram tantos e tão bons os de casa e os de fóra, que nunca se apagava o[{62}] lume para as refeições do espirito. Mesa posta para os gourmets da intellectualidade; porta aberta para todos os que chegavam, fossem gregos ou troyanos.
Conheci Castilho na rua do Sol ao Rato, onde recebia na sua enorme bibliotheca, uma vasta sala, que os melhores auctores de todos os paizes e de todos os seculos povoavam de alto a baixo. Fazia respeito aquillo: era uma cidade, um emporio de celebridades consagradas.
Castilho, coroado de cans, dava a impressão de ser um patriarcha das letras. Cego como Homero, via tudo o que queria vêr; jámais houve um cego que visse tanto. Até lia mentalmente os titulos dos livros que o rodeiavam. Aqui está o meu Bernardes, dizia elle: ia á estante, punha o dedo indicador n'um livro, e tirava a obra de Bernardes que desejava citar. Parecia ter os olhos fechados para, concentrado, reforçar por um momento a visão, que depois se tornava mais aguda e perspicaz.
Os seus olhos faziam lembrar os de D. João I: raça de escol, que já vinha apurada de longe.
Julio foi sempre o braço direito do pai, a sua luneta, o seu bordão, o seu alter ego. O pai adorava-o; elle adorava o pai. Não podiam viver um sem o outro; eram como dois gemeos, duas existencias que se fundiam n'uma só.
Augusto, official de marinha, andava quasi sempre embarcado por longinquos mares. Raro apparecia em Lisboa; mas Castilho lembrava-o muitas vezes n'um impeto de saudade paternal, que é a mais funda, a mais incisiva, a mais cruel de todas as saudades.