Foi um incendio voraz!
Parecia a propria Gomorra!{29}
E os manes do doutor Adrião Forjaz velam de pudor a face ouvindo repetir, na chalaça de Coimbra, a phrase attribuida aos labios castamente impollutos de uma bôca impeccavel, onde só os eufemismos floriam como lirios brancos.
Conheci em Lisboa, de o vêr no parlamento, o irmão de João Penha, tambem advogado, e n'esse tempo deputado por Braga.
Contava-se em Coimbra que o poeta, encarecendo as virtudes do irmão, costumava dizer d'elle:
—O seu unico vicio sou eu.
De improvisos feitos na aula, escriptos sobre o joelho e transmittidos de bancada em bancada, ficou em Coimbra memoria imperecivel, que irradiou até á raia do Minho e até á raia do Algarve, como uma lenda nacional.
Perderam-se para a bibliographia os dois jornaes, o Zabumba e a Gaita de folles, que{30} João Penha publicou na Sebenta, no quarto e quinto anno; mas as quadras e sonetos, em que a alegria mordaz esfusiava diariamente n'essas folhas avulsas, salvaram-se para a tradição, que ainda hoje os repete, como se estivessem sendo lidos, nas noites de Coimbra. Quantas vezes não tenho eu ouvido recordar em Lisboa muitos dos epigrammas de João Penha, improvisos feitos nas aulas, como, por exemplo, o do Pinto Lambaça!
Em pé, diante do Brito,
Dá lição Pinto Lambaça:
Parece a voz do Infinito
A sair d'uma cabaça!
E aquell'outro apontado ao nariz vermelho de Tamagnini Encarnação?
Tamagnini Encarnação
Tem na ponta do nariz
O colorido feliz
De uma rosa do Japão.{31}