E especifica: a soberba, a avareza, a luxuria...

Deglutindo truculentamente, um velho frade, saturado do mundo, dirá para o fundo do prato com os seus botões:—Que mulher conheci eu por lá que valesse esta bella petisqueira d'Alcobaça?

Assim João Penha, como o bernardo guloso, exclama no soneto:

Cantai-me a vida, e o sonho transitorio!
Cantai, emquanto á dor busco remedio
Nos vastos caldeirões do refeitorio.

A raça, no breve lapso de vinte annos,{47} hysterisou-se excessivamente em nervosismos e melancolias, que allucinam funebremente o cerebro dos poetas modernos.

Vede bem! João Penha cantava o Paio, celebrava o Presunto, preconisava a Vida, ao passo que Antonio Nobre deixa entenebrecer o seu espirito no symbolismo tetrico da Velha (a morte) e do Hotel da Cova (a sepultura).

E, todavia, Coimbra, onde um gozou e o outro se aborreceu, continua a ser talqualmente a mesma, pesa sobre a Universidade a mesma Torre de pedra, sobre os hombros do doutor Pedro a mesma Torre de sciencia, ha o mesmo cheiro a lente cathedratico e a bolôr auctoritario, a Pandecta rançosa falla ainda mais alto que toda a concepção do Direito moderno explanada pelo snr. M. Fratel, porque, n'essa Coimbra vetusta, ha só uma coisa que falla mais alto que a Universidade,—é a Cabra.

Continuando o meio a ser o mesmo, sendo{48} mesmissima a atmosphera social onde a mocidade academica respira, é claro que a variedade das impressões recebidas se ha de explicar pelas condições especiaes, tanto psychicas como physicas, do individuo que as recebe.

Assim, pois, temos em João Penha a musa viva que floresce o amarantho, rubro como a purpura e como... o paio: em Antonio Nobre temos a musa languida que desabrocha a pállida cecém, perfumada, mas branca como a neve.

Depois de haver escripto a Carta a Manoel, Antonio Nobre, sedento de ideiaes consolativamente calmantes, vai, luziada errante, procurar a Vida no Bairro Latino, e lá mesmo se encontra e desgraçado.