Estes gritos de desespero fazem lembrar aquella sazão plena de romantismo, em que Dumas Filho obtinha um duplo triumpho no romance e no palco quando Armand Duval arremessava a bolsa recheiada de oiro á face de Margarida Gautier.{52}

És da raça dos Borgias! vocifera o poeta, mas traça a capa de estudante, e vai procurar o contra-veneno da paixão

... nos bôjos da amphora vetusta.

Diz Gonçalves Crespo que a mulher amada do poeta poz, um dia, o pé no estribo, e partiu para Lisboa. Mas a verdade é que quem partiu foi elle, deixando-a a ella, aos sinceiraes do Mondego, ao Paiz azul do sonho e á vida murciana de Coimbra. N'essa hora surgiu mais um advogado em Braga.

Poderiam, erradamente, suppol-o voluvel, inconstante no amor os que não conheciam os segredos da sua biographia, que a resposta não tardava, prompta e cabal:

Mais frio que Blondin sobre o Niagára,
Julgas minh'alma em vis paixões accesa;
E comtudo nas ostras da bellesa
Eu só procuro o amor, perola rara.

Mas, não encontrando a perola rara, tomava{53} o partido de comer ostras, temperando-as com pimenta e limão, e com o sorriso tolerante de Pangloss, para quem tudo era pelo melhor no melhor dos mundos possivel.

Convém notar que João Ponha deu o titulo de Lyra de Pangloss a uma das subdivisões das suas Rimas.

Sahindo de Coimbra, não chorava sobre as ruinas dos seus sonhos desfeitos, das suas illusões perdidas. Vinha desenganado, mas gordo. O espirito,

Aquelle meu espirito opulento,
Que vivia na luz dos sonhos bellos,