JOÃO PENHA

BRAGA

LIVRARIA ESCOLAR DE CRUZ & C.ª
EDITORES

Aquelle meu espirito opulento,
Que vivia na luz dos sonhos bellos,
Jaz ha muito nas ruinas dos castellos,
Que no ar edifica o pensamento.

João Penha.

«... Quem publica um livro não o faz para o ler, publica-o para que os outros o leiam. Quer, portanto, produzir um effeito qualquer, effeito que, em todo o caso, não pode ser o do somno: para este ha o opio, a belladona e o Codigo do Processo Civil.»

João Penha.

[I]

Ha quinze dias, João Penha e eu, sentados no mesmo banco do americano, vinhamos do Senhor do Monte para Braga, e conversavamos de litteratura. Nomes de auctores, nomes de livros, recordações dispersas, do tempo em que elle redigia a Folha em Coimbra e eu lhe enviava do Porto algum insignificante auxilio de collaborador, passavam rapidamente na precipitação{8} tumultuante do dialogo, a cada momento interrompido pelas paragens do tramway, pela entrada e saida de passageiros, pela voz auctoritaria do conductor, que explicava em dialecto calaico:

—Bai cheio. Num ha logar.

Tendo João Penha alludido a mais de um dos poetas, que constituiram a constellação academica da Folha, para entrelembrar casos e anecdotas da bohemia coimbrã, disse-lhe eu de repente:

—Por que não escreve as suas memorias de Coimbra?