E ainda aquele que joga de vocábulo com o nome do condiscípulo Ennes:

A letra dos teus assuntos
Bem nos demonstra quem és:
Vale dois nn bem juntos,
É letra de quatro pés.

Há poucos dias, no In ilo tempore das Novidades, li o epigrama com que João Penha alvejou a gastronomia proverbial do doutor Sanches da Gama:

Dizem que o Sanches embirra
Que lhe vão pedir dispensa.
Forte asneira!
—Imagina que lhe pedem
A despensa
Onde tem a salgadeira...

Agora e sempre me parece novo em folha o famoso soneto A um doutor Pedro, que pode ser considerado, o soneto, como inexcedível na profundidade do conceito. Pelo que{32} toca ao doutor, a tradição universitária apenas o considera inexcedível no esguio da figura;

E vimos uma forma horrenda e bruta
Surgir do lodo vil com gesto iroso,
Como outrora, no Cabo Tormentoso,
O velho Adamastor de barba hirsuta.

—«Quem és tu?» eu lhe disse.—«Bardo, escuta,
(Bramiu com voz ingente e desdenhoso)
Eu sou no espaço infindo e luminoso
O verbo ideal da estupidez corrupta.

«Na terra sou Penedo: e o mar violento,
O mar das ciências vãs da humanidade,
Já quis vencer-me, e foi baldado o intento!»

Disse. E ouvimos naquela obscuridade
O cântico dum trémulo jumento:
—Era o preito da terra à Imensidade.

Sobre os inextinguíveis vestígios desta sátira têm caminhado as gerações subsequentes, cantando o doutor incomensuravelmente filiforme. António Nobre também molhou a{33} sua sopa no capelo que encima o zingamôcho do catedrático zangaralhão:

Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!
Que feliz sou, bom velho, em estudar contigo!
Mal diria eu em pequenito, quando a ama,
Para eu me calar, vinha fazer-me susto à cama
Por ti chamava: Pedro! e eu sossegava logo,
Que eras tu o Papão! A ama, de olhos em fogo
Imitava-te o andar, que não era bem de homem...
Eu tinha birras:—Aí vem o lobisomem!
Dizia ela.—Bate à porta! Truz! truz! truz!
E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jesus!

Nas mais alucinantes tempestades de entusiasmo académico a musa de João Penha era a sarça ardente que prendia todos os olhares, atraía todas as atenções pela originalidade fidalga do conceito, e pela gentileza patrícia do verbo flamejante, como no soneto A uma rabequista:

Eu dera um litro do meu sangue azul,
(Oh meus avós, não fulmineis o herege!){34}
Só por beijar-te, no chapim taful,
O pequenino pé, que orquestras rege![[6]]