O paio parecia-me na obra de João Penha um símbolo de salutar desengano para os que criam na espiritualidade etérea da mulher e que, regressando alquebrados do País do Sonho, ainda podem achar reabilitação salvadora na despensa, no réstaurant, e na cava.

És minha, és minha, oh venturoso fado!
Cedeste à chama que em meu peito alento!
Chegou por fim o divinal momento,
O dia de meus sonhos anelado!

O céu, há pouco torvo, hei-lo azulado:
Sussurra esmorecido ao longe o vento;
Esplende o sol no etéreo firmamento;
Recende aromas o florente prado.

Quando há pouco a teus pés (oh quadro lindo!)
Te disse o meu amor, em doce esmaio
Senti volúpias de um prazer infindo.

Oh camênas agrícolas, cantai-o!
Ela, a minha formosa, ela fugindo,
Deixou-me o coração, deixou-me o paio.{44}

Desfeito o sonho, fica nas mãos do poeta como um refém da sua esperança perdida, das suas ilusões derrotadas, o paio,—a porção mais subjectiva do eu espiritual da dama, o paio, um símbolo, o paio, uma filosofia, como o porco do rebanho de Epicuro, Epicuri de grege porcus.

Se alguma dúvida pudesse restar sobre a interpretação deste símbolo culinário, que atravessa toda a obra do poeta, bastaria a desvanecê-la a clara exegese deste soneto:

Aquela Rosa branca, a flor mais viva
Dos jardins olorosos de Granada,
Já não parece a flor enamorada,
Triste por viver só, viver cativa.

Outrora, em seu mirante, pensativa,
Muitas vezes a luz da madrugada
A via entre boninas, enlevada,
Nos sons duma guitarra fugitiva.

Agora, a Beatriz do Poeta abstruso,
A Eleonora das canções do Tasso,
A Natércia gentil do cantor luso,{45}

Sol perdido em nevoeiro escuro e baço,
A cítaras prefere a roca e o fuso,
Aos meus cantos,—presuntos de Melgaço!

Sente-se na simbólica de João Penha a alma alegre de uma geração que teve sangue, que teve vigor, que adorou a vida porque a podia gozar.

Respira-se aí o aroma aperitivo de um suculento jantar fradesco, como na antiga cozinha dos bernardos de Alcobaça, que ainda hoje, apesar de vazia, dá a impressão do apetite salubérrimo da ordem de Cistér.

Como que se ouvem os passos dos leigos conduzindo da copa os cangirões bojudos, da ucharia as viandas gelatinosas, e da frescura dos coutos, regados por água diamantina, as frutas deliciosas e maduras.

Um braço invisível parece encaminhar o nosso espírito à vasta mesa do refeitório cisterciense, onde a gula monástica levanta castelos de comezana maciça, que o apetite{46} voraz há de em breve vencer e desmoronar.

Sobe ao púlpito, enquanto os outros devoram pingues vitualhas, um pregador aguado, que, com os olhos postos no gordo repasto, fala, sem fé e sem unção, da diabólica atracção dos sete pecados mortais, que os setecentos filhos de S. Bernardo ali reunidos devem a todo o custo evitar.