João Penha, durante o seu tempo de Coimbra, saltou, como um funâmbulo, por sobre todos os desgostos do amor íntimo, sem entornar a taça repleta de falerno.{49}
Não há dor que resista a um vinho ardente,
Nem ao fácil amor de uma espanhola.
Porque a verdade, ao contrário do que eu e outros poderíamos supor de longe, enganados pela aparência picarescamente irónica dos versos de João Penha, a verdade é que ele amou, embora não andasse lutuosamente vestido de almáfega, nem passeasse merencório e sinistro como os bardos melodramáticos, que aliás caricaturou.
Os humoristas levam ás vezes a estes erros de apreciação, porque, em vez de fazerem da sua dôr um poema, segundo a expressão de Goethe, fingem que lhe sopram, como a uma nuvem de fumo, para dissipá-la...
No fundo da biografia de João Penha está efectivamente a memória de um amor, que inspirou O Vinho e Fel e O Tancredo, poema no género do Onofre, e que, como muitas outras composições, perdidas, ou publicadas em jornais, não saiu nas Rimas.{50}
—Nós em Coimbra, dizia-me João Penha, bebíamos, não para apagar a sede ou para afogar paixões,—mas para dar tom aos nervos e activar os movimentos do maquinismo intelectual. Todavia não deve esquecer-se que o vinho é o grande consolador dos tristes: date vinum moerentibus et lætobunt...
Esta frase rasga o véu de um segredo, que o vinho letificante diluiu na taça da bonomia.
Mas ri-se como quem chora,
O bardo das cenas várias,
Qual ri o mocho sombrio
Sobre as loisas funerárias.A noite na adega esconsa,
D'uns candís à luz escassa,
Quantas vezes não procura
O esquecimento na taça!
.......................
Que já li sobre uma lage,
Oculta, numas cavernas,
Este sinistro epitáfio
Do fantasma das tabernas:«Aqui jaz o bardo triste
Junto à bela Carolina:{51}
Riu-se a bela do rapaz,
Riu-se o rapaz da menina.»
Mais de um rugido de paixão leonina estruge na adega esconsa, à luz fumenta dos candis, enquanto a tia Camela despeja do pichel um gorgolão vermelho de falerno:
Venho pedir-te o retrato
Que te dei por amizade:
Não quero servir de ornato
Nos alcouces da cidade.Quero lavá-lo nas ondas,
Que gemem na praia agreste,
Daquelas manchas hediondas
Dos beijos que tu lhe deste.Quero arrancar-lhe a moldura,
O teu cabelo, e trocá-lo
Por uma trança mais pura
Das crinas do meu cavalo.