vira morrer os «últimos anelos», mas resistira, graças ao sábio formulário do doutor Pangloss. E o corpo, sadio e forte, continuou a florescer

... em tão doce obesidade,
Que dentro em pouco me vereis no transe
De tomar ordens e fazer-me abade.

A gente sai da leitura das Rimas tão bem{54} disposta como João Penha saiu de Coimbra.

Ordinariamente um livro de versos, especialmente os modernos, deixam no nosso espírito a impressão de um cemitério sombrio, umbroso de ciprestes e chorões, dealbado de mausoléus luarentos, como diria um nefelibata, e de cruzes tiritantes de frio na gélida nudez do mármore.

Pelo contrário, as Rimas de João Penha são como um pomar do Minho, ubérrimo e cantante, onde a cor dos frutos se tinge de tonalidades sadias, onde o despenho da água sobre a relva viçosa espuma em borbotões sonoros, e onde os pássaros, nas latadas verdes, assobiam numa bambochata feliz de colegiais em liberdade.

É com a impressão de ter visitado um destes pomares feracissimos e alegres que a gente fecha o volume das Rimas.{55}

[IV]

Em literatura, João Penha é hoje, como ontem, um conservador convicto, um idealista, um romântico, intransigente, mas brilhante de originalidade saudável.

As suas opiniões são conhecidas.[[7]]{56}

Para ele a escola romântica, sem estar subordinada a uma única e determinada filosofia, porque não há relação próxima ou remota entre os seus três grandes poetas, Lamartine, Hugo e Musset, resistirá a todos os golpes que lhe vibrem os revolucionários da literatura, será eterna, porque eternamente o homem «perseguido pela realidade, se refugiará, pelo menos durante algumas horas do seu dia, no mundo das ilusões.»