Vagara entretanto o throno de Navarra, a que o infante aragonez, D. João, subira pelo seu casamento com a infanta D. Branca. Este incidente deu uma nova face ás pendencias de D. João de Castella com D. Affonso de Aragão. O infante D. Henrique reconquistara a liberdade, para continuar a lucta, e o rei de Aragão dissolveu o exercito com que se havia preparado para combater o adversario.

Em 1425 nascera, como dissemos, da alliança de D. João II com sua prima D. Maria, um infante, que recebeu o nome de Henrique. Era o quarto do nome que devia succeder na coroa de Castella.

A rainha D. Maria morreu envenenada, em Villecastin, a 15 de março de 1455. Pouco antes havia tambem fallecido em Toledo, crê-se que por effeito de veneno, sua irmã a rainha D. Leonor, viuva de D. Duarte, de Portugal. A morte d’estas duas princezas filia-se no apoio que poderiam querer dar ou receber do infante D. Henrique, seu irmão. Não faltou todavia em Portugal quem indiciasse o infante portuguez, D. Pedro, como cumplice, senão auctor, da morte de sua cunhada D. Leonor de Aragão, para evitar novos embaraços politicos á regencia, durante a menoridade de Affonso V. Esta suspeita, lançada sobre o caracter do infante D. Pedro, não conseguiu maculal-o perante a historia, porque são os proprios chronistas hespanhoes, entre elles Flores, que apontam o condestavel castelhano, D. Alvaro de Luna, como promotor do envenenamento de ambas as princezas. O infante D. Pedro havia até annuido a que D. Leonor voltasse para Portugal, mas a negociação mallograra-se pelo subito fallecimento da rainha em Castella.

Pelo que respeitava a esta senhora, receava D. Alvaro que influisse para que seu irmão D. Henrique voltasse a Toledo, d’onde fôra expulso, porque servindo a causa de seu irmão julgaria a rainha de Portugal favorecer a sua propria causa contra o regente D. Pedro.[1]

Quanto á rainha de Castella, D. Maria, pensou o condestavel D. Alvaro em desembaraçar-se da sua influencia por um meio violento, aliás muito vulgar então na côrte castelhana: o veneno.

«Uma e outra, diz o padre Flores, morreram de veneno, segundo a promptidão e effeitos da morte; pois que D. Leonor morreu de repente, depois de tomar um remedio caseiro; D. Maria não sentiu maior enfermidade que uma dor de cabeça, e ao quarto dia morreu. Os cadaveres de ambas cobriram-se egualmente de vergões, e portanto se attribuiu a morte a veneno. De mais a mais, vê-se do processo instaurado contra D. Alvaro de Luna, que influira para que fosse ministrada peçonha ás duas rainhas.»

O plano de D. Alvaro não falhara, porque logo depois da morte da rainha feria-se a 29 de maio uma batalha junto a Olmedo. O rei venceu. D. Henrique morreu, em Calatayud, do ferimento que recebera durante a batalha, e D. Alvaro de Luna conseguira ser investido no mestrado de S. Tiago, que o infante tivera.

Fôra o condestavel D. Alvaro que negociara o segundo casamento de D. João ii, de Castella, com a infanta D. Isabel, filha do infante D. João de Portugal e neta de D. João I. D’este segundo casamento nasceram a infanta D. Isabel e o infante D. Affonso, que vieram a representar na politica de Castella um papel importante, principalmente Isabel, que sobreviveu ao irmão, e que pelo seu casamento com Fernando de Aragão preparou a unidade hespanhola, finalmente realizada por Carlos V.

Por agora, reportemo-nos ao nascimento de Henrique IV, successor do throno de Castella.