«Tomando em consideração a lealdade,{81} intelligencia, circumspecção, affecto, serviços e todas as mais cousas dignas de menção que a nosso amantissimo Pae de feliz memoria, e tambem a nós com singular desvelo prestou o nosso leal D. Alvaro de Almada, Conde de Avranches, do conselho{82} do nosso Parente o muito excellente Principe e poderosissimo Senhor Rei de Portugal, e capitão mór em todos os seus reinos e dominios, e Alcaide mór da cidade de Lisboa, e querendo outrosim que taes serviços não fiquem em esquecimento e sem{83} recompensa: por nosso motu proprio concedemos ao mesmo D. Alvaro em quanto viver cem marcos de pensão annual, a receber do nosso Erario de Inglaterra por mão do nosso thesoureiro e officiaes que então alli servirem, e a vencer em porções eguaes pela Paschoa e pelo S. Miguel. Em fé do que é. Testimunha R.»
«Westminster 9 de agosto»[[44]].
«Sello particular do Governo, 13 de agosto 23 H. 6.—Nós, tomando em consideração{84} os bons serviços, grande zelo, e bom amor que nosso fiel e bem amado Alvaro de Almada, cavalleiro de Portugal, nos tem feito e prestado e aos nossos muito nobres antepassados, o temos feito e creado ha pouco tempo conde de Avranches, e além d'isso temos concedido ao dito Alvaro uma pensão de 100 marcos por anno durante a sua vida. Nós vos ordenamos de lhe entregar uma taça de ouro do valor de quarenta marcos[[45]] e a somma{85} de cem marcos contidos na dita taça»[[46]].
Estas mercês foram feitas por Henrique VI na sua dupla qualidade de rei de Inglaterra e duque de Normandia em França. Insistimos n'este ponto para combater o erro em que tantos escriptores nacionaes e estrangeiros têm cahido, de suppor que Alvaro Vaz recebera do rei de Inglaterra a ordem da Jarreteira, e do rei{86} de França o condado de Avranches, que estava incluido no antigo ducado de Normandia. O rei era um só. A este respeito com inteira razão nota o snr. Oliveira Martins que nem se concebe que, estando em guerra os dous reinos, o mesmo homem fosse feito conde de Avranches pelo rei de França e cavalleiro da Jarreteira pelo rei de Inglaterra[[47]].
Em 1447, o joven rei D. Affonso V{87} pede a seu tio o infante D. Pedro que lhe entregue as redeas do governo, o que immediatamente consegue.
É então que principia a agitar-se em torno do infante ex-regente a intriga atiçada pelo duque de Bragança.
Os conselheiros de D. Affonso V diziam-lhe, segundo conta Pina, que «por segurança não sómente de sua vida, mas da justiça e fazenda tirasse, como logo tirou, todos os officios, que os criados de seu{88} tio na côrte tinham de qualquer qualidade que fossem, pondo suspeições e testimunhos falsos, a uns que erravam na justiça, e a outros que roubavam a fazenda, e a outros que dariam peçonha a el-rei, segundo a cada um em seus officios podia tocar, e para parecer que o queriam provar, não falleciam logo pessoas induzidas, que com medo de pena, ou com esperança de galardão, que lhe promettiam, na sua vontade o testimunhavam»[[48]].
O que é certo é que, apesar de todas estas machinações dos inimigos do infante D. Pedro, o joven rei Affonso não se mostrou severo, nem mesmo reservado, com D. Alvaro Vaz de Almada quando elle recolheu a Lisboa.
É que, como logo veremos pelas palavras do infante D. Pedro, Alvaro Vaz tinha{89} augmentado a sua gloria militar, praticando em Ceuta novos e brilhantes feitos de armas.
N'este lance da narrativa, precisamos recorrer mais uma vez ao testimunho de Ruy de Pina, transcrevendo um capitulo da sua Chronica: