Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado: estas heroicas palavras calaram no animo, até ahi indeciso, do infante D. Pedro.{108}
Conheceu que a razão e a honra estavam do lado de D. Alvaro. Acceitou-lhe o conselho. As duas almas entendiam-se, completavam-se. Tinha chegado o momento decisivo: só restava apparelhar para elle. Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado. Tal era o dilemma. A voz da cavallaria portugueza fallára pela bocca de D. Alvaro.
Preparou-se o infante D. Pedro para a sorte das armas, qualquer que ella fosse.
Ruy de Pina, que segue os moldes de Tito Livio, pondo longos discursos na bocca dos personagens historicos, descreve d'este modo a scena intima, que se déra entre D. Pedro e D. Alvaro:
«E passados alguns dias depois estes conselhos, o infante não se esfriando em seu proposito, apartou só em uma camara o conde d'Abranches, e lhe disse—conde, sabe que eu sinto já minha alma aborrecida de viver n'este corpo, como desejosa de{109} se sair de suas paixões e tristezas, e considerados os seus combates que minha vida, honra, e estado cada dia recebem, com esperança de não minguarem, mas cada vez crescerem mais, certo se as cousas n'esta viagem me não succedem como eu desejo, e seria razão, eu todavia determino morrer e acabar inteiro, e não em pedaços, e como quer que tenho outros bons criados e servidores, que por suas bondades folgariam e não se escusariam de morrer comigo, porém em vós sobre todos tomei esta confiança, assim pela irmandade que comigo merecestes ter, na santa e honrada ordem da Garrotea em que somos confrades, e como por creação que vos fiz, e principalmente pela certidão que de vossa bondade e esforço tenho muito ha conhecido, e por tanto quero saber de vós, se no dia que d'este mundo me partir, querereis tambem ser meu companheiro, e com isso lembre-vos para satisfazerdes aos primores de vossa{110} honra, que sendo vós tão conhecidamente meu criado e servidor, e tão publico imigo do conde d'Ourem e arcebispo de Lisboa, depois de minha morte não podeis ter vida, salvo reservada para com mãos d'algozes a perderdes em lugares vis, e com pregões deshonrados. Senhor, respondeu o conde, para caso de tamanho contentamento, como foi sempre e é para mim viver e morrer por vosso serviço, muitas palavras nem os encarecimentos não são necessarios, eu vos tenho muito em mercê escolherdes-me para tal serviço, e eu sou muito contente ter-vos essa companhia na morte, assim como vol-a tive na vida, e se Deos ordenar que deste mundo vossa alma se parta, sede certo que a minha seguirá logo a vossa, e se as almas no outro mundo podem receber serviço umas das outras, a minha n'esse dia irá acompanhar e servir para sempre a vossa».
Ferdinand Denis torna esta scena mais{111} rapida, e por isso mesmo talvez mais verdadeira.
O infante teria perguntado a D. Alvaro, com uma simplicidade e rudeza proprias do caracter de ambos, se estava disposto a morrer por sua causa.
D. Alvaro responderia com laconica firmeza:
—Acaso não sou eu vosso irmão de armas?
Esta concisa resposta vale bem, segundo as ideias d'aquelle tempo, o discurso de Ruy de Pina.