—Ella viu-me, mas foi-se andando. Enfiou por entre umas pedras da parede, e desappareceu.
E após um breve silencio:
—Estes bichinhos, disséra o Bernardo apontando para o chão, onde um formigueiro enorme mourejava, não são tão maldosos. A bem dizer, tirante a alma, fel-os Deus mais amigos do trabalho do que alguns homens.
Parei a garrana, e olhei.
Era uma alluvião de formigas que punha uma nodoa preta e ondulante á orla da valeta.
Ainda na vespera, estando eu junto á estação de Vizella, á espera do comboio que devia descer de Guimarães, tinha sido impressionado por uma d'estas obscuras scenas{10} de realismo campestre em que os pequenos insectos avultam na grandeza da sua humildade... Fôra tambem uma formiga o protogonista silencioso d'esse rapido drama, em que eu figurei de comparsa e em que fiquei pensando o bastante para extrahir d'elle o elevado ensinamento, que agradeci á natureza, visto que tendo de esperar alguns momentos, julguei que nada poderia haver ali que os occupasse utilmente.
E emquanto o comboio não chegava, uma serie de pensamentos imprevistos fôra alinhando-se metricamente no meu espirito e acolchetando-se, pensamento a pensamento, pela attracção mysteriosa da consonancia.
Esses versos, que só teem o merito unico da espontaneidade casual, inspirados e principiados junto á estação de Vizella, eram horas depois concluidos, postoque não limados. Como recordação da minha viagem ao Minho, cujo fim principal fôra a visita á quinta de S. Miguel de Seide, tomo a liberdade de offerecel-os á sr.ª D. Anna Augusto Placido, como rustica oblata deposta por um romeiro sincero no altar da amizade antiga. Intitulam-se:{11}
A FORMIGA
Oh! que grande cobardia
Esta em que eu ia cahindo!
Pobre formiga, fugia!
Com que pressa ia fugindo
Toda cheia de canseira,
Por haver roubado da eira
De loiro trigo um só bago!
E eu de entretido que ia
Por um triz que a não esmago!Sem querer, era cobarde.
Mas juro por minha fé
Que passava mal a tarde
Se lhe tenho posto o pé.Que a formiga é tão activa.
Tão mansa e laboriosa,
Do seu trabalho captiva,
Do seu viver cuidadosa!
Passa e não deixa um vestigio!
Não mancha as folhas da rosa!
Chega mesmo a ser prodigio
Que um tão pequenino insecto
Que se arrasta aos pés da gente,
Trabalhe tão diligente,
Tão delicado e discreto!Ha insectos bem maiores
Que vivem na mandriice,
São panreas, são mandriões,
E dizem co'os seus botões
Que o trabalhar é tolice.{12}A cigarra é cantadeira,
Não faz nada a descuidosa.
Por mais que a gente a condemne.
Até o bom Lafontaine
Lá lhe chamou preguiçosa.
Nem assim se envergonhou!
Vive inda entregue á cantiga!
Canta, cantará, cantou...
E talvez até que diga
Vendo a formiga cansada,
Tão activa e carregada:
«Ora a tola da formiga!»Mas a formiga, coitada!
Tão pequenita, que até
De qualquer criança o pé
A deixa logo esmagada,
Vae lidando a sua lida,
Soffrendo a sua canseira:
Aqui vence uma barreira
—Alguma hervinha mimosa!—
Ali transpõe um barranco,
Uma montanha altrerosa,
—Qualquer seixosito branco!Corre risco de afogar-se
No oceano temeroso
De qualquer gota de orvalho!
Eu, quando a vejo arrastar-se
No seu lidar canseiroso,
Bemdigo n'ella o Trabalho.E escuto uma voz amiga
Que me diz, vendo-a passar:
«Tu és irmão da formiga
«Na condição do lidar.»{13}O mundo é vasto, é enorme
E os grandes formam-n'o todo!
O rico descansa e dorme
Tendo delicias a rodo.
D'esta rêde de grandeza
Só rompe o espesso tecido
O pobre que na pobreza
Fôr do mais pobre doído.Lida a formiga, trabalha
E á força de trabalhar
Consegue que a dura malha
Ceda para ella passar.«O que tu tens feito é isto.
—Diz da consciencia a voz sã,
Sempre sincera e amiga—
«Deixa passar a formiga,
«Que a formiga é tua irmã.»«Grande gloria o vencel-a
«Quando co'um bago de trigo
«Vae passando carregada!
«Vaidade! havia de tel-a
«O grande que te esmagasse
«Na tua lide suada!»Deixae que a formiga passe
Evitando o mar-orvalho
E a cordilheira-pedrinha.
A formiga é o Trabalho...
Poupai-a, se ella caminha.{14}Sem querer, era cobarde,
Mas juro por minha fé
Que passava mal a tarde
Se lhe tenho posto o pé.
Mais adiante ouvimos o estrondo de morteiros ao longe.