Vi Saldanha... depois de morto. E posso dizer, porque é verdade, que o vi por um oculo: o oculo aberto na urna em que elle viera de Inglaterra. Mas em todo caso vi-o, pude apreciar por mim proprio os traços d'essa phisionomia dominadora, ao mesmo passo altiva e insinuante.
Vi o Sampaio da Revolução... de guardanapo ao pescoço, tomando pacatamente o seu chá de familia, e comendo com tranquilla delicia bolos de côco. Elle, o terrivel adversario de Costa Cabral, o valente redactor do Espectro, o ardente pamphletario de 1846, vi-o eu ser o mais pachorrento, o mais soffrido, o mais tolerante dos homens que n'este paiz têem mexido em politica.
Vi Fontes nos seus dias de maior gloria tribunicia, ouvi-o, convivi com elle politicamente nas horas de triumpho e adversidade. Tambem o vi morto, com o seu uniforme de general, deitado no modesto leito que os cirios rodeavam lançando sobre o seu rosto macerado um pallido clarão indeciso.
Vi Costa Cabral velho, arrastando-se ainda com certo vigor de homem forte para a sua cadeira de par do reino, e vi abrirem-se para elle todos os braços, e ouvi{173} as saudações respeitosas que todos os homens lhe dirigiam, sem excepção dos antigos patuléas enragés.
É que o tempo tinha passado, adormecido as paixões, saciado as impaciencias, envelhecido os homens.
Chegára a paz geral, que o meu excellente amigo D. Polycarpo Lobo, hoje coronel de lanceiros,[15] havia prophetisado. Os adversarios de 1848 tinham ensarilhado armas, os regeneradores de 51 haviam-se congraçado com os vencidos d'aquelle anno, e o proprio Sampaio, com uma magnanimidade que faz honra á sua memoria, referendára o decreto que agraciou Antonio Bernardo da Costa Cabral com o titulo de marquez de Thomar.
Em que abismo de recordações não mergulharia o espirito d'aquelles homens, que se estimavam na paz depois de se haverem odiado na lucta! Como elles ririam da fraqueza do barro humano, que julga, nos impetos do combate, que o ardor póde ser eterno, e que as suas proprias paixões hão de queimar durante toda a vida com a mesma violencia! E como elles chorariam intimamente sobre a memoria dos dias de refrega, das noites mal dormidas, dos receios, dos pavores, dos tormentos de outr'ora, que se desfizeram em fumo!
Algumas vezes pensei n'isto, vendo Fontes e Sampaio sentados nas suas cadeiras de ministros, e o marquez de Thomar sentado na sua cadeira de par do reino, meneando a cabeça, approvando tacitamente o que elles diziam...
Ao cabo de quarenta annos estavam de accôrdo, e a onda revolucionaria da Maria da Fonte tinha rolado para o sorvedouro da historia, deixando maiores recordações no papel do que nos homens.
Meio seculo é espaço mais que sufficiente para transfigurar, por dentro e por fóra, a natureza humana.{174}