É incalculavel o numero de autopsias que meu pae fez como medico forense. Quando eu e meus irmãos eramos pequenos, embirravamos muito de que meu pae viesse para casa cheirando a vinagre aromatico: já sabiamos que tinha estado retalhando um cadaver.

Elle ria-se dos nossos engulhos, mettia-nos jovialmente á galhofa, e dizia-nos que puzessemos os olhos no seu bom appetite.

Só uma vez, á volta de uma autopsia, o vi chegar menos alegre. Mandou inutilisar parte do fato com que tinha saido, para obstar ao contagio do dipheterismo.

Apenas dou conta de o ver doente uma vez, era eu creança; cuido que havia sido atacado de ictericia negra, com graves complicações. Os collegas fizeram-lhe conferencia: acharam-n'o perigoso. Meu pae, que teve sempre uma grande agudeza de ouvido, escutou o prognostico que elles fizeram, e logo que sairam, disse a minha mãe:

—Está-me appetecendo uma chavena de chá e uma torrada.

—Pelo amor de Deus! Isso não!

—Morra Martha, morra farta. Venha o chá e a torrada.

Como a sentença era de morte, não o quizeram excitar, contrariando-o. D'ahi a oito dias levantava-se do leito.

—Nós sabemos sempre muito, dizia elle, mas o doente sabe sempre mais.

Esta descrença ironica pela sciencia que exercia era quasi sempre manifesto nas suas apreciações medicas; uma pontinha de scepticismo fazia-o desdenhar do seu{22} diploma, que principiára a conquistar aos 17 annos, em 1825, quando entrou na Escola Medica.