Ministerio do Reino

«Direcção geral da administração politica—1.ª repartição—Livro 15 n.º 143==Ill.mo e Ex.mo Sr.—Tenho a honra de participar a V. Ex.ª para conhecimento da Camara dos Dignos Pares do Reino, que Sua Magestade El-Rei, attendendo ao que lhe foi representado pelo conselheiro d'estado effectivo João de Souza Pinto Magalhães, e pelo socio effectivo da Academia Real das Sciencias Alexandre Herculano de Carvalho, Houve por bem, por decreto de 4 de junho corrente, acceitar a renuncia, por elles feita nas Reaes Mãos do Mesmo Augusto Senhor, da dignidade de pares do Reino a que haviam sido elevados por cartas regias de 17 de maio proximo findo.

«Deus Guarde a V. Ex.ª. Secretaria d'estado dos negocios do Reino, em 8 de junho de 1861.—Ill.mo e Ex.mo Sr. Presidente da camara dos Dignos Pares do Reino.—Marquez de Loulé.»

As dimensões de uma pequena brochura obrigam-nos a circumscrever este capitulo, a que poderiamos dar comtudo bem mais amplas proporções.


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IV

José Gomes Monteiro

Sparta, que no render culto á mocidade sobrelevava toda a mais Grecia, foi guiada pela legislação de Licurgo ao respeito da velhice. Facto verdadeiramente extraordinario! N'uma cidade onde as creanças rachiticas eram afogadas logo que nasciam, como cidadãos inuteis, os velhos, tão inuteis para o serviço da republica como as creanças votadas á morte, eram considerados em face da lei dignos do respeito e da estima dos seus concidadãos.

Desde o momento em que um paiz entra no caminho do progresso social e na conquista de um ideal de perfectibilidade, começa a ter pela velhice uma veneração tão carinhosa como delicada. Realmente, offender um velho é apedrejar uma arvore carregada de fructos. As republicas, como todas as sociedades, precisam alimentar-se da experiencia dos velhos e do ardor dos mancebos. Entre estas duas luzes, a do sol que declina, e a do sol que se levanta, deslisa toda a existencia da{40} familia e da nação. Estas duas correntes, em vez de se contrariarem, auxiliam-se, e ás vezes identificam-se de tal modo na harmonia de um grande progresso intellectual, que dirieis que a velhice e a mocidade se conglobaram n'uma só alma aspirando ao mesmo ideal. Ditosos os paizes onde este facto se dá! Em França, por exemplo, Michelet, o velho que morreu moço, absorvera em si a alma da mocidade, que transparecia nos seus livros cheia do perfume da primavera, e do colorido chatoyant de tudo quanto é novo e vigoroso; Victor Hugo, a alma que não envelheceu, conservou na voz da sua lira a frescura matutina do canto da cotovia, que seduz as imaginações juvenis, arrastando-as para o mundo das auroras, para as conquistas da luz. Sempre que a velhice puder e a mocidade souber, não será possivel marcar limites aos progressos de um paiz, mas será facil aventar que elle tomará a deanteira a todos os outros para guial-os na marcha das suas aspirações sociaes.