N'um livro de memorias, que abrange vinte annos da minha vida, julgo-me obrigado a falar dos dois em que passei pelo parlamento. D'outro modo a coisa não valeria chronica.
Trepado ao poleiro de S. Bento, todo o meu ideal era auxiliar lealmente a politica do meu partido, sem deixar comtudo de prestar algum serviço ás lettras portuguezas, que indirectamente me tinham levado lá.
Tive mais trabalho em fazer vingar um projecto de minha iniciativa, estabelecendo a leitura nocturna nas bibliotheca publicas, do que aquelle que seria preciso para me fazer visconde. O projecto passou, graças á minha teimosia, e hoje, 12 de novembro de 1889, posso avaliar por dados estatisticos, hoje mesmo publicados n'um jornal, que não perdi o meu tempo.
No mez de outubro proximo findo, concorreram á bibliotheca nacional de Lisboa 2:586 leitores, assim divididos:
Leitura diurna: leitores, 1:092; volumes impressos, 2:061; manuscriptos, 49; visitantes, nacionaes e estrangeiros, 6.
Leitura nocturna: leitores, 1:494; volumes impressos, 2:482; manuscriptos, 31.
O numero dos leitores nocturnos é já excedente ao dos leitores diurnos, o que prova que a lei não foi inteiramente inutil aos que n'este paiz gostam ou precisam de ler.
Para os torneios da eloquencia havia, n'aquella legislatura, campeões experimentados e insignes. A minha humilde e desauctorisada palavra não se tornava precisa. Limitei-me portanto a fazer uso d'ella apenas quando careci de justificar o meu voto.{54}
Da pequena bagagem que deixei depositada no Diario dos sessões escolherei um unico discurso, não só para comprovar o que deixo dito, mas tambem porque o assumpto era de geito a tentar as predilecções de um homem que, até dentro da politica, estima os assumptos historicos.
Tratava-se do projecto de lei relativo ao monumento do marquez de Pombal.