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XI
Mendes Leal
Dois escriptores da geração que nos precedeu não estão tendo desde já a celebridade posthuma, que ás vezes começa para outros escriptores no proprio dia dos funeraes. Refiro-me a Rebello da Silva, e Mendes Leal.
Não se fala muito d'elles, não se cita a sua auctoridade litteraria, não se dá o seu nome a qualquer instituição, a qualquer philarmonica ou club de operarios em folga. Pois admira, que não morre homem conhecido que não appareça logo um gremio de classe, musical ou dançante, a adoptar-lhe o nome.
E todavia, Rebello da Silva, que eu aliás já não conheci pessoalmente, foi o mais brilhante estilista que até então floresceu em Portugal. Nunca ninguem antes d'elle, e não sei se depois, possuira uma paleta tão rica de tintas, uma palavra tão pomposamente e tão elegantemente colorida.
Assombra vêr como saíam perfeitas e primorosas as suas primicias litterarias aos vinte annos. Uma d'ellas{105} foi o romance historico Ráusso por homizio, publicado em 1842 na Revista universal Lisbonense. Com razão dizia a Revista referindo-se a este romance: «Damol-o sem alteração de uma virgula, qual saiu da penna de seu auctor:—que seria sacrilegio tocar, nem de leve, nas primicias que á sua patria offerece um tal espirito—¡quem no acreditaria!—¡de vinte annos!»
Assombroso, em verdade.
Mendes Leal, que foi meu amigo, em algumas coisas meu patrono, tratei-o particularmente, tive sobeja occasião de avaliar a vasta erudicção do seu espirito e a fidalga grandeza do seu coração.