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XIV
Innocencio Francisco da Silva
Devi sempre a este homem benemerito as mais subidas provas de estima pessoal e de consideração litteraria.
Foi elle que me propoz socio correspondente da Academia Real das Sciencias. E fel-o espontaneamente, penhorando-me sobremodo.
Mantive com Innocencio as melhores relações de amizade, inalteravel entre nós dois até os ultimos dias da sua attribulada existencia.
Digo attribulada, porque em verdade o foi: Innocencio não recebeu nunca do estado os beneficios a que, pela improba canceira a que se dedicou, tinha inquestionavel direito. Foi obrigado a dividir o seu tempo entre a funcção burocratica, que desempenhava no governo civil de Lisboa, e os seus valiosissimos trabalhos bibliographicos. Nem todos os homens de lettras lhe faziam inteira justiça; muitos d'elles investiram cruelmente com o pobre Innocencio, chegando a negar-lhe foros de escriptor, simplesmente pelo facto de não ser{125} um estilista. Alguns amesquinhavam o seu trabalho, que capitulavam desdenhosamente de rol de roupa suja de livros velhos. Que revoltante injustiça! De mais a mais, Innocencio, na absorvente paixão que tinha pelos livros, não dispunha de meios bastantes para poder satisfazer todos os seus caprichos de bibliophilo.
Estas circumstancias explicavam inteiramente o tom por vezes azedo e irritado das suas apreciações litterarias, falando ou escrevendo. Innocencio devia pouco ao mundo para o qual sempre havia trabalhado dedicadamente. Tinha a consciencia de merecer mais do que lhe davam, e o seu espirito justiceiro revoltava-se contra essa flagrante ingratidão. D'elle é que com propriedade se poderia dizer que fôra um vencido da vida. Viveu atormentadamente; e assim morreu.
Mas, serenadas essas legitimas explosões de colera, que bello coração o seu e, a sobredoirar a bondade do coração, que excellente caracter de portuguez antigo!