Hoje, tres annos passados sobre a morte do actor Santos, abro o pequeno livro das suas memorias, que elle publicou já acorrentado ao leito da morte como o Prometheu ao rochedo, cerrados os olhos na escuridão com que a cegueira o quiz habituar á noite eterna do sepulcro, dilacerado o peito amante pelo abutre implacavel da saudade...

N'esse pequeno livro, que tem o que quer que seja de sagrado como os epitaphios, encontro uns versos meus escriptos para a noite do seu beneficio no theatro de D. Maria em 16 de maio de 1874.

Paro um momento a lel-os:

Foi aqui—a historia o conta...
Que entre flôres, palmas, himnos,
Dos talentos peregrinos
Brilhou a constellação.
Era um loureiral a scena,
O theatro escola e templo,
Cada talento um exemplo,
Cada palavra—lição.{143}

Formoso e esplendido quadro!
As bellas frontes rasgadas
Resplandeciam banhadas
Em misterioso fulgor...
Grupo onde tudo era grande
Merecia moldura d'ouro,
Se tantas cordas de louro
Não o cingissem melhor.

Foi o tempo devastando
As maravilhas da tela.
Onde a loira Manuela?
Onde Epiphanio, o pharol?
Onde Sargedas, a graça?
Onde Tasso e a sua gloria?
Mais quatro nomes na historia,
Mas não é posto inda o sol.

Não é. O quadro tem vida.
Move-se, agita-se, fala
Remurmuram n'esta sala
Os eccos da sua voz...
Supponde muitas palmeiras
Rasgando do céu as brumas...
Quando o vento prostra algumas,
As outras não ficam sós.

Dos velhos heroes da scena
Descem hoje sobre o espolio,
No theatro-Capitolio,
Flôres d'antiga ovação.
É que um talento robusto,
Honrando um nobre legado,
Resuscita hoje o passado,
Renova as flôres d'então.

E a sua voz, que domina
Da ovação a anciedade,
É a voz da posteridade,
Que da scena aos velhos reis
Diz como um brado da historia:
«La vos honrei o legado;
«Se vos prostrou o passado,
«Não sois mortos. Reviveis...»{144}

E de todos estes versos, a que unicamente a saudade de José Carlos dos Santos poderia dar segunda edição, ha um em que a minha attenção particularmente se detém:

Mas não é posto inda o sol.

Então, em 1874, este verso era profundamente verdadeiro. O theatro de D. Maria fazia lembrar n'esse tempo um vasto pantheon onde alvejavam as urnas funerarias dos grandes vultos da scena portugueza. Emilia das Neves não tinha ainda morrido, mas a velhice aniquilava-a. Já se não contava com ella senão para relembrar-lhe a gloria. E n'esse venerando cemiterio, onde o cipreste e o loureiro coufundiam as suas ramagens, Santos sacrificava em honra de tantos mortos illustres, sacerdote solitario que devotadamente ia enflorando as lousas com as corôas e as palmas que elle proprio ganhava para perpetuar a tradição gloriosa do velho theatro normal.

Elle era, para que assim o digamos, o crepusculo interposto a um dia de victoria e a uma noite de decadencia.

Não era posto ainda o sol, porque elle era a luz crepuscular; não estava inteiramente deserto o templo, porque Santos o povoava ainda.

Mas não havia outro laço vivo a prender o passado ao presente senão elle.