A convivencia não podia ser melhor. Havia examinadores{150} do Porto, de Lisboa, e de Coimbra. Acompanhavamo-nos uns aos outros nos passeios de todas as tardes. Só um unico dos nossos collegas, aliás homem estimabilissimo, se furtava á nossa companhia para divagar sósinho: era o pintor Christino, que fazia parte do juri de desenho.
Christino embarcava quasi diariamente, Mondego acima, e, recostado na prôa do barco, parecia gosar n'um extasi pantheista o bello espectaculo da natureza que o rodeava.
Os seus olhos absorviam todas as ondulações luminosas d'aquella clara paizagem, lucida e placida como uma vista de stereoscopo.
Pois que o pintor Christino tinha a configuração de um eucalipto, alto e magro, nós, que da Ponte o ficavamos observando, podiamos distinguir, até grande distancia, a sua figura esguia, as linhas do seu busto, que destacavam á prôa do barco.
Subindo o Mondego, era quasi sempre para a margem do poente que a sua cabeça descoberta, e mal guarnecida de cabello, pendia scismadora. Comprehendia-se. Christino reunia mentalmente á belleza do panorama as tradições romanticas, as memorias lendarias d'aquella margem. D'esse lado ficava a Fonte dos amores emboscada saudosamente na sombra de corpulentos cedros, que ali ouvem a agua suspirar a elegia dos mallogrados amores de Ignez. Mais para cima, á distancia de dois kilometros da cidade, a Lapa dos esteios, «retiro selvatico sem aspereza, e como enfeitado sem arte», segundo a phrase de Castilho, recordava os tempos semi-pagãos em que o poeta da Primavera e os seus amigos ali foram, em plena mocidade, celebrar, no seio da natureza, a festa do equinoxio que traz as flores e os canticos, os perfumes e os amores.
Christino havia sido educado n'essas tradições romanticas, tinha uma alma de artista, era uma organisação{151} delicada como a de Raphael, que se devorava nas suas proprias impressões, e ninguem mais profundamente do que elle poderia sentir toda a poesia d'essa região encantada, que o Mondego banha, e que as recordações e as arvores povoam.
Elle ia, rio acima, tão sonhador e abstracto como se uma gondola de Veneza o fosse passeando no canal do Lido ao som da barcarola de uma gondoleira. Ó dolce voluttá! Ó deliciosa voluptuosidade espiritual dos artistas! Que doces horas aquellas que o Christino passou no Mondego sonhando sobre as aguas!
Muitas vezes, vendo-o partir, o meu espirito o ficou abençoando do alto da Ponte como se elle levantasse ferro para uma longa viagem aventurosa e arriscada. É que eu, talvez por experiencia propria, sei quanto a gente envelhece de vagas saudades n'esses passeios ao acaso, que desgastam a alma, e com ella a vida. Volta-se velho, como se realmente se tivesse feito uma longa viagem. O passado é um paiz ideal onde se envelhece ao cabo de algumas horas de concentração.
Depois que regressei a Lisboa poucas mais vezes tornei a avistar-me com o pintor Christino.
Esse excentrico scismador das tardes de Coimbra morrêra, e ouvi dizer que a luz da sua razão tinha empallidecido primeiro que a dos olhos...