S. Pedro, o guarda-portão, foi pescador nos seus tempos, e por isso, já sabes, os pescadores vão todos para o inferno.

É por isso, amigo Tibério, é por eu estar bem com todos que os conheço. Exactamente como os farmacêuticos que preferem sempre as drogas feitas em casa dos vizinhos. Não os aturo. Talvez sejam bons os que não conheço. Duvido e não me tenho dado mal. E por mais que parafuse, não chego a perceber porque razão é que Deus não se zanga por um padre ter o chapéu na cabeça na sua presença e dá o cavaco por ver o chapéu na cabeça de qualquer mortal. Altos desígnios!

Ah! mas no outro mundo é que são elas. Deus envia-me para Satanaz. Mas êste, que não pode ver Nosso Senhor nem pintado, sabe que é por vingança que êle me faz aquela partida e, em logar de me frigir, encarrega-me de escrever a crónica do seu vizinho do andar de cima. Então é que eu direi o patife que êle é.

Estou desconfiado de que em morrendo nem Jesus Cristo me vale. E como a viagem não é das mais pequenas e incerto o destino, ou recomendarei nas minhas últimas vontades que, à semelhança do que faziam aos defuntos na Suécia, que lhe metiam no caixão o cachimbo, a bôlsa de tabaco, os fósforos e algum dinheirito para a viagem,—encerrem no meu tudo isso, uns volumesitos para ler, papel, pena e tinta para escrever as minhas Memórias. Não quero confiar êsse encargo ao snr. Fernando de Lacerda, porque temo que êle diga que são dele, as Memórias. E estou certo de que em sucesso—como se diz à francesa—não ficariam muito àquem das Memórias duma actriz, de Mercedes Blasco.

Se, alêm disso, quiserem meter mais um chapéu de sol e umas galochas, como se faz em Reichenbach, na Alemanha, e uma certidão de baptismo com o meu nome e sinais, atestando a bondade dos meus costumes e a pureza da minha fé, como se faz na Rússia, tambêm não será mau.

E, amigo Tibério... Aqui, Tibério, que está quási a dormir, espreguiça-se e com aquele olhar inteligente e vivo, que todos lhe conhecem, diz-me irónico:

«Mas isso é o que se chama não ter religião nenhuma!...» ao que eu redargúo abespinhado—exactamente como Gérard de Nerval no salão de Vítor Hugo:—«Não ter religião nenhuma? Pois se tenho pelo menos dezassete!?»

Gomes Leal

De Gomes Leal se anuncia para breve um novo livro, êsse antigo, ruidoso e singular Antí-Cristo, completamente refundido e aumentado. Gomes Leal é sem dúvida uma das mais curiosas, extravagantes e originais figuras da nossa literatura contemporânea. Sitando longe da baixa, num modesto segundo andar lá para os sítios da Graça, necessário é, se o quisermos encontrar, ter de procurá-lo no seu gabinete de trabalho, uma sala alegre e clara onde há um canapé, uma bela cadeira de vêrga, uma secretária e uma cómoda, ambas estas cobertas de livros, de brochuras, de cartas e de papeis. Das frinchas das gavetas entreabertas surgem agressivos pedaços de manuscrito. O poeta é um concentrado, vivendo muito pelo espírito, lendo tudo e tudo sabendo. Gomes Leal, convêm dizê-lo, é um paladino da Arte, um D. Quichote de quem a Arte é Dulcinêa; como aquele—aventuroso; como aquele—sonhador e louco; porque—diz-me aqui do lado um malcriado que está vendo o que eu escrevo—é preciso ser-se louco ou sonhador para ter veleidades de Arte em Portugal.