O que o novo livro de Gomes Leal será não o sei eu. Calculo o que êle seja. O Anti-Cristo, que era na primeira edição um bom livro, sairá considerávelmente melhorado. Anos passaram sôbre a primeira edição. Anos passaram sôbre o espírito do poeta. O Anti-Cristo sairá e não somos nós, não é o público, nem a crítica, nem a imprensa, quem dele dirá de sua justiça. Ela será feita pelas gerações futuras «visto que é preciso morrer para que nos façam justiça», como disse Zola e como disse o Camilo.

Gomes Leal é ainda um exemplo a apontar a novos e vélhos. A vélhos que se gá-gáisaram e a novos que se vão gá-gáisando. E nesta época resulta precioso. Nesta época de lamentáveis Ortigões, Ortigões mais do que lamentáveis, deploráveis. Nesta época em que os vélhos perderam o silêncio e a vergonha, e os novos, pingando máguas, veem, sem vergonha nem silêncio, fazer versinhos insípidos e cantatas inspiradas. Novos a quem o poeta odeia:

É o ódio contra ti, fraca geração nova,

que amas sómente rir, e não tens convicções,

nem ideal, nem fé, nem nervos, nem tendões

não sabes venerar, não sabes ter respeito

rugir, nem arrancar as lágrimas do peito,

nem rir como Voltaire, amar como Romeu

sofrer como Jesus—nem odiar como eu.

Que não sabem venerar quem devem, nem castigar quem o merece. Ora Gomes Leal, com tôdas as desigualdades do seu talento, é honesto, não é oportunista, visto que não é interesseiro, está-se manguitando para tôdas as sinecuras, ucharias, fardas e logares. Ama a arte sôbre tôdas as cousas e o próximo,—exactamente como a mim,—nada lhe interessa. É por isso, por êle se manguitar, nada lhe interessar o próximo, e não se parecer nada com os vélhos que entonteceram, que eu o considero. E considero-o porque são raros os vélhos que tenham a sua mocidade, tanto como são raros os novos, que, como êle, saibam ser dignos.