Comecei por contratar Verissimo Gonçalves para me acompanhar, e consegui fazer-me obedecer por elle cégamente.
Depois de muito estudar o caminho a seguir, resolvi ir direito ao alto Zambeze, seguindo a cumiada do paiz onde nascem os rios d'aquella parte d'Àfrica.
Chegado ao Zambeze, queria seguir a leste, estudar os affluentes da margem esquerda, e descendo ao Zumbo, ir d'ali a Quilimane por Tete e Senna.
Os mais pràticos sertanejos, sabedores do meu projecto, diziam-me, que eu não chegava a meio caminho do Zambeze, e creio que me tinham por tôlo.
Eu deixava-os falar e prossegui sempre na organização do pessoal e confecção do material necessario aos meus planos.
No dia 27 de Março, primeiro em que pude escrever livremente, escrevi ao Governo da Metròpoli, e ao Pereira de Mello, e Silva Porto. Dava-lhes parte do occorrido até então, e pedia-lhes auxilio e consêlho, submettendo á sua crìtica os meus projectos. Despachei portadores para Benguella com as cartas, e fui trabalhando, mais confiado em mim do que em outrem.
A esse tempo, uma grande parte das cargas deixadas em Benguella, em Novembro ¡havia 5 mezes! ainda não tinham chegado.
Apparecéram-me na libata o ex-chefe de Caconda, Alferes Castro, e o degradado Domingos, que iam para Caconda. Contáram-me que, chegados ao Bihé, tinham sido encarregados por Capello e Ivens de ir construir o abarracamento, e de fazer transportar para ali as cargas que estavam em Belmonte.
O Alferes Castro voltava sem nenhum confôrto, e eu, das 6 caixas de rancho que me tinha deixado o Ivens, dei-lhe o assucar, chá, café, etc., necessario para a viagem.
Creio que aquelle senhor, depois de ter sido a causa de tanto soffrimento que tive, de tantos riscos que corri, não terá motivo de queixar-se do modo por que o recebi no Bihé; se quizér ser justo e verdadeiro.
Quanto ao degradado Domingos, se bem me recordo, dei-lhe uma carta de recommendação para o Governador de Benguella, de quem ia solicitar um favor.
Foi assim que tratei os dois homens que mais me fizéram soffrer em Àfrica, porque quando déram causa a isso, eu ainda não estava habituado ao soffrimento.
No principio de Abril, eu já bastante melhor, tinha promptos 60 carregadores, e esperava apenas a chegada das cargas de Benguella, para receber mais alguma fazenda e partir.
A minha vida era um trabalhar incessante, e ao mesmo tempo compilava um livro de lembranças, para ter á mão as fòrmulas que me eram necessarias para os meus càlculos; fazia umas tàbuas de raizes quadradas e raizes cùbicas, que calculei para os nùmeros de 1 a 1000. Deduzia com trabalho immenso algumas fòrmulas trigonomètricas, porque na Europa, para tornar mais portateis as minhas tàbuas logarìthmicas, as tinha feito encadernar, supprimindo a parte explicativa; e por um engano deploravel, n'uma remessa de objectos que de Loanda fiz para Portugal, fôram incluidos os meus livros mathemàticos. Não se riam os sabios, da singeleza com que lhes narro as difficuldades com que lutei no Bihé para poder ter escritas n'um livrête algumas fòrmulas vulgares. Quem não é explicador de mathemàtica, vê-se muitas vêzes embaraçado para resolver uma questão mui simples, quando lhe falte um livro que lhe avive a memoria priguiçosa. No Bihé faltavam-me tôdos os livros, e por isso eu fazia um, para meu uso, e ou se riam ou não, declaro-lhes que não me foi facil. Tôda a minha bibliotheca consistia em três almanacs para 1878, 1879, e 1880, as tàbuas de logarithmos, como já disse, sem texto, tàbuas somente, o Eurico de Herculano, as poesias de Casimiro d'Abreu, e um livrinho de Flamarion, As Maravilhas Celestes.
Em tudo isto não tinha muito onde refazer a memoria para as questões de x e y.
Depois havia ainda outra difficuldade. Eu tinha de fazer e de pensar em muitas cousas ao mesmo tempo, e cousas um pouco incompativeis entre si. Ás vêzes tinha conseguido quasi reconstruir uma das fòrmulas de Neper para resolver triàngulos esphèricos, quando entrava o muleque, e me exigia que dizesse, se a gallinha para o jantar devia ser cozida ou assada (durante a minha estada no Bihé, comi cento e sessenta e nove gallinhas). Logo, entrava outro pedindo sabão para lavar a roupa; depois, eram carregadores que me vinham falar; em seguida, enviados do sova, que me queriam extorquir mais algumas jardas de fazenda. Um inferno, um verdadeiro inferno.
Eu tinha feito e fazia um grande nùmero de observações meteorològicas.
Os meus chronòmetros estavam perfeitamente regulados, e a minha posição determinada. Algumas excursões que fiz no paiz com a bùssola na mão, permitíram-me fazer uma carta, de certo grosseira, mas tão aproximada quanto se pôde exigir de um trabalho d'estes em viagem de exploração. Apesar dos meus trabalhos, ou talvez por causa d'elles, eu estava satisfeito, e mal pensava nas tribulações porque tinha de passar ainda nas terras do Bihé.
Antes porem de continuar a narrativa das minhas aventuras, abro um parenthesis para falar um pouco d'este paiz, tão importante e rico quanto pouco conhecido entre nós, a quem interessa mais o seu conhecimento do que a ninguem.
O Bihé limita ao Norte com o sertão do Andulo, a N.O. com o Bailundo, a Oeste com o paiz de Moma, a S.O. com os Gonzellos de Caquingue, ao S. e L. com os pôvos Ganguelas livres. O rio Cuqueima é quasi um limite natural do Bihé por Oeste, Sul e Leste, mas, na realidade, a autoridade do sova do Bihé ainda se exerce para àlém d'aquelle rio em alguns pontos. O paiz é pequeno, mas muito povoado.
Eu avalio grosseiramente a sua àrea em 2500 milhas quadradas, e um càlculo ainda mais grosseiro fêz-me estimar a sua população em 95 mil habitantes; o que nos dá apenas 38 habitantes por milha quadrada; e ainda que este nùmero nos pareça mui pequeno, por ser menos de um terço do que se dá entre nós, é consideravel para a Àfrica Austral, onde a população está muito pouco accumulada.
Em tempo, como se verá, pouco distante, estas terras do Bihé eram povoadas de matas densas, onde abundavam elefantes, e onde assentavam raras povoações de raça Ganguela.
O rio Cuanza, depois da sua confluencia com o Cuqueima, divide o paiz do Andulo do paiz de Gamba, que lhe fica a leste. Era sova de Gamba um tal Bomba, que possuia uma filha de grande formosura, chamada Cahanda.
Este sova Bomba vivia na margem esquêrda do rio Loando, affluente do Cuanza.
A formosa e nêgra princesa Cahanda, pediu ao pai para ir visitar umas parentas que eram senhoras da povoação de Ungundo, ùnica de alguma importancia no Bihé de outrora.
Estando a filha do sova Bomba n'esta povoação de Ungundo a visitar as parentas, aconteceu chegar ao paiz um ouzado caçador de elefantes chamado Bihé, filho do sova do Humbe, que com grande comitiva tinha passado o Cunene e estendido as suas excursões venatorias até áquellas remotas terras. Um dia o selvagem discìpulo de Santo Huberto têve fome, e estando perto da povoação de Ungundo, dirigio-se ali a pedir de comer. Foi então que vio a formosa Cahanda, e é preciso dizel-o, que vel-a e amal-a foi obra de um momento. Estas questões de amor em Àfrica sam muito semelhantes ás questões de amor na Europa, e pouco depois do encontro dos dois jovens, Cahanda era raptada, e Bihé plantava a estacada da grande povoação que ainda hôje é a capital do paiz, paiz a que deu o seu nome, fazendo-se acclamar sova. As dispersas tribus Ganguelas fôram por elle submettidas, e o pai da primeira soberana do Bihé reconciliando-se com a filha, permittio uma grande immigração do seu pôvo para ali. Ao casamento do sova succedéram-se muitos outros entre as mulhéres do norte e os caçadores do seu sèguito, e esta é a origem do pôvo Biheno.
Assim os Bihenos sam Mohumbes, nome que na Àfrica Austral de oeste dam aos descendentes da raça do Humbe, os quaes não se encontram só no Bihé, mas estam tambem espalhados em outros pontos, sôbre tudo frente da costa entre Mossàmedes e Benguella, misturados com os Mundombes, que sam a verdadeira raça d'aquelle paiz. Hôje a verdadeira raça Mohumbe no Bihé é representada pêla nobreza e gente rica do paiz, os descendentes dos caçadores do primeiro sova, e ainda assim, fôra da familia reinante, está ella misturada com sangue de raças muito differentes; porque, sendo o Bihé desde o seu comêço um grande emporio de escravatura, e tendo sido colonizado em grande parte por escravos de raças diversas, o baixo pôvo provem de uma mistura inexplicavel, e a nobreza mesmo, nas suas bastardias numerosas, tem trazido ás suas descendencias sangue dos paizes mais remotos da Àfrica Austral.
Da união de Bihé e da formosa Cahanda nasceu um ùnico filho varão, que têve o nome de Jambi, e succedeu no governo a seu pai. Este Jambi têve dois filhos, dos quaes o primogènito se chamou Giraúl, e o segundo Cangombi. Giraúl herdou o poder por morte de seu pai, e receiando de seu irmão, que tinha grande influencia no pôvo, o fez prender secretamente de noite, e o vendeu como escravo, a um prêto que ia levar uma leva de escravos a Loanda.
Cangombi, por acaso, em Loanda foi comprado pêlo Governador Geral, de quem foi escravo. Tempos depois, os despotismos e as arbitrariedades de Giraúl fizéram-n-o detestado do seu pôvo; houve conspiração, e alguns nobres partíram secretamente para Loanda, com muito marfim, para resgatar seu irmão, e acclamal-o, depois de deporem aquelle. O governador de Angola de então, vendo o partido que podia tirar d'esta questão, para a corôa Portugueza, não só entregou Cangombi sem resgate, mas ainda o encheu de presentes, e lhe deu auxilio contra seu irmão; e por isso Cangombi se apresentou no Bihé com grande comitiva, que veio por Pungo-andongo e subio o Cuanza, entre a qual se contavam muitos Portuguezes. Declarada a guerra, Giraúl foi vencido, sendo traido pêlos seus, e entregou as redeas do governo a seu irmão mais nôvo, que lhe deu uma povoação e um pequeno dominio para viver.
Quatro annos depois, Giraúl revoltava-se e vinha pôr cêrco á capital. Novamente vencido e prisioneiro, foi entregue por seu irmão aos Ganguelas de àlém Cuanza para o comerem; não que estes Ganguelas sejam positivamente canibaes, mas, de vez em quando, não desgostam de comer um bocado de homem assado.
Eu não pude saber o nome do governador que prestou mão-forte ao filho segundo do Jambi para lhe dar o poder, mas estou certo que a esse respeito alguma cousa dêve existir no Ministerio da Marinha e Ultramar, porque um passo d'aquelles não podia deixar de ser communicado ao governo da Metròpoli.
Cangombi foi grande sova, e têve oito filhos, dos quaes seis fôram sovas do Bihé; o que não é para admirar, porque ali herda o poder o mais pròximo da ascendencia. Assim, em quanto existem filhos de um sova, os netos não vam ao poder, e o neto primogènito do filho primogènito só toma as rèdeas do governo quando não existe nenhum dos seus tios, irmãos mais nôvos de seu pai.
Por esta lei herdou o poder Cahueue, filho mais velho de Cangombi, e por mortes successivas, seus irmãos Moma, Bandúa, Ungulo, Leamúla e Caiangúla. Os dois filhos de Cangombi que não fôram sovas, fôram Calali e Óchi, por terem morrido cêdo. Este Óchi era immediato ao mais velho Cahueue, e deixou um filho que foi sova por morte de seu tio Caiangúla, por não ter deixado filhos o irmão mais velho de seu pai.
Este sova chamava-se Muquinda, e por sua morte foi o governo a seu primo Gubengui, filho mais velho do sova Moma immediato a seu pai. A este Muquinda seguia-se outro irmão chamado Quitungo, que morreu quando ia ser acclamado, já dentro da capital.
De tôdos os oito filhos de Cangombi, só existia um descendente legìtimo, filho do sova Bandúa, que foi acclamado. É elle Quillemo, o actual sova do Bihé.
Ha contudo um filho bastardo de Moma, chamado Canhamangole, que está indigitado para succeder a Quillemo; em seguida passarám ao poder, os filhos d'este ùltimo, que sam muitos.
Por este breve resumo da historia do Bihé se vê, que aquelle paiz é de fundação recente, e que desde o seu comêço quasi, existíram relações ìntimas entre os Portuguezes e Bihenos, pêla intervenção tomada pêlo Governador Geral de Angola, na acclamação do sova Cangombi, avô do actual sova Quillemo, e neto do fundador da monarchia Bihena.
Assim, pois, o Bihé, desde a sua fundação tem sido governado por treze sovas em cinco gèrações, que vam representadas no seguinte quadro:--
Na carta de Angola, de Pinheiro Furtado, já vem, indicado o Bihé, mas a sua origem não dêve ir muito àlém da coordenação d'aquella carta.
Figura 19.--Mulhér do Bihé cavando.
Figura 20.--Carregador Biheno em marcha.
| Figura
21A. Palissada Solta. | Figura 21B. Palissada amarrada com Casca de arvore. | Figura 21C. Palissada travada com Forquilhas. |