Oh, como surge magestosa e bella, Com viço da creação, a naturesa, No solitario valle!--E o leve insecto, E a relva, e os matos, e a fragrancia pura Das boninas da encosta estão contando Mil saudades de Deus, que os ha lançado, Com mão profusa, no regaço ameno Da solidão, onde se esconda o justo. E lá campeam no alto das montanhas Os escalvados pincaros, severos, Quaes guardadores de um logar que é sancto: Atalaias que ao longe o mundo observam, Cerrando até o mar o ultimo abrigo Da crença viva, da oração piedosa, Que se ergue a Deus de labios innocentes. Sobre esta scena o sol verte em torrentes Da manhan o clarão; a brisa esvae-se Por esses matos de alecrim florído, Embalsamando o ar de brando aroma: O rocío da noite á rosa agreste No seio derramou frescor suave, E 'inda existencia lhe dará um dia! Formoso ermo do sul, outra vez, salve!
IV.
Negro, esteril rochedo, que contrastas, Na mudez tua, o placido sussurro Das arvores do valle, que verdecem, Ricas d'encantos, co'a estação propicia; Suavissimo aroma, que manando Das variegadas flores, derramadas Na sinuosa encosta da montanha, Do altar da solidão subindo aos ares, És digno incenso ao Creador erguido; Livres aves, vós filhas da espessura, Que só teceis da natureza os hymnos; O que crê, o cantor, que foi lançado, Estranho ao mundo, no bulicio delle, Vem saudar-vos, sentir um goso puro, Dos homens esquecer paixões e opprobrio, E vêr, sem ver-lhe a luz prestar a crimes, O sol, e uma só vez pura saudar-lha. Comvosco eu sou maior: mais longe a mente Pelos seios dos céus se immerge livre, E se desprende de mortaes memorias Na solidão solemne, onde, incessante, Em cada pedra, em cada flor se escuta Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa A dextra sua em multiforme quadro.
V.
Escalvado penedo, que repousas Lá no cimo do monte, ameaçando Ruina ás matas de alecrim e murta, Que nesta encosta ondeam, meneadas Pelo vento do sul, foste já lindo, Já te cubriram cespedes virentes; Mas o tempo voou, e nelle involta A tua formosura: as grossas chuvas, Despedidas das nuvens, se arrojaram Sobre ti, oh rochedo, arrebatando A terra e o viço, que te ornava o cimo. Eis-te nú esqueleto!--o sol queimou-te: Tua alvura passou: tão negro és hoje, Quanto de mar erguido escuras vagas. Cáveira da montanha, ossada immensa, É tua campa o ceu: sepulchro o valle Um dia te será. Quando sentires Rugir com som medonho a terra ao longe, Na expansão dos volcões, e o mar bramindo, Lançar á praia vagalhões cruzados; Tremer-te a larga base, e sacudir-te Do vasto dorso, o fundo deste valle Te váe servir de tumulo: e os carvalhos Do mundo primogenitos, e os freixos, Arrastados por ti lá da collina, Comtigo hão-de jazer.--De novo a terra Te cubrirá o dorso sinuoso: Outra vez sobre ti nascendo os lyrios, Do seu puro candor hão-de adornar-te: E tu, ora medonho, e nú, e triste, Ainda bello serás, vestido e alegre. Mais que o homem feliz!--Quando eu no valle Dos tumulos cair; quando uma pedra Os ossos me esmagar, se me fôr dada, Não mais reviverei: não mais meus olhos Verão o pôr do sol, em dia estivo, Se em turbilhões de purpura, que ondeam Pelo extremo dos céus sobre o occidente, Váe provar que um Deus ha a estranhos povos, E alem das ondas tremulo sumir-se; Nem, quando, lá do cimo das montanhas, Com torrentes de luz inunda as veigas: Nem mais verei o refulgir da lua No irrequieto mar, na paz da noite, Por horas em que véla o criminoso, A quem íntima voz rouba o socego, E em que o justo descança, ou, solitario, Ergue ao Senhor um hiymno harmonioso.
VI.
Hontem, sentado n'um penhasco, e perto Das aguas, então quêdas, do oceano, Eu tambem o louvei, sem ser um justo: E meditei--e a mente extasiada Deixei correr pela amplidão das ondas. Como abraço materno, era suave A aragem fresca do caír das trévas, Em quanto, involta em gloria, a clara lua Sumia em seu fulgor milhões d'estrellas. Tudo calado estava: o mar somente As harmonias da creação soltava, Em seu rugido; e o freixo do deserto Se agitava, gemendo e murmurando, Ante o sopro de oeste:--alli dos olhos O pranto me correu, sem que o sentisse, E aos pés de Deus se derramou minha alma.
VII.
Oh, que viesse o que não crê, comigo, Á vecejante Arrabida, de noite, E se assentasse aqui sobre estas fragas, Escutando o sussurro incerto e triste Das movediças ramas, que povoa De saudade e de amor nocturna brisa; Que visse a lua, o espaço oppresso de astros, E ouvisse o mar soando:--elle chorára, Qual eu chorei, as lagrymas do goso, E adorando o Senhor detestaria De uma sciencia van seu vão orgulho.