A noite escura desce: o sol de todo Nos mares se afogou: a luz dos mortos, Dos brandões o clarão fulgura ao longe, No cruzeiro somente e em volta da ara: E pelas naves começou ruído De compassado andar. Fiéis acodem A visitar o Eterno, e ouvir queixumes Do vate de Sion. Em breve os monges Lamentosas canções aos ceus erguendo, Sua voz unirão á voz desse orgam, E os sons e os écchos reboaráõ no templo. Mudo o côro depois, neste recinto Dentro em bem pouco reinará silencio, O silencio dos tumulos, e as trevas Cubrirão por esta área a luz escassa Despedida das lampadas, que pendem Ante os altares, bruxuleando frouxas. Imagem da existencia!--Em quanto passam Os dias infantís, as paixões tuas, Homem, qual então és, são debeis todas: Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso Sobrenadam a dor, e o pranto, e o longo Gemido do remorso, a qual lançar-se Vai, com rouco estridor, no antro da morte, Lá onde é tudo horror, silencio, noite. Da vida tua instantes florescentes Foram dous, e não mais: as cãas e rugas, Breve, rebate de teu fim te deram. Tu foste apenas som, que o ar ferindo Se esvaíu pelo espaço immensuravel. E a casa do Senhor ergueu-se!--o ferro Cortou a penedia; e o canto enorme. Polido alveja alli no espesso panno Do muro collossal, que ha visto as eras Velhas chegar, e adormecer-lhe ao lado: A faia e o sobro no caír rangeram Sob o machado: a trave affeiçoou-se; Lá na cimo pousou: restruge ao longe De martellos fragor, e eis ergue o templo, Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas. Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento, Se esváe, como da cerva a leve pista No pó se apaga ao respirar da tarde, Do seio dessa terra em que és estranho Saír fazes as moles seculares, Que por ti, morto, fallem: dás na idéa Eterna duração ás obras tuas! Tua alma é immortal, e a prova a déste!
VI.
Anoiteceu:--nos claustros resoando As pisadas dos monges ouço: eis entram; Eis se curvaram para o chão beijando O pavimento, a pedra: oh sim, beijai-a! Igual vos cubrirá a cinza um dia, Talvez em breve--e a mim. Consolo ao morto É a pedra do tumulo. Se-lo-ia Mais se do justo só a herança fora; Mas tambem ao malvado é dada a campa. E o criminoso dormirá quieto Entre os bons sotterrado!--Oh não! em quanto No templo ondeam silenciosas turbas, Exultarão do abysmo os moradores, Vendo o hypocrita vil, mais ímpio que elles, Que escarnece do Eterno, e a si se engana; Vendo o que julga que orações apagam Vicios e crimes, e o motejo e o riso Dado em resposta ás lagrymas do pobre; Vendo os que nunca ao infeliz soltaram De consolo palavra, ou de esperança: Sim:--malvados tambem hão-de pisar-lhes Os frios restos que separa a terra, Um punhado de terra, a qual os ossos Destes ha-de cubrir em tempo breve, Como cubriu os seus, qual vai sumindo Nos mysterios da campa a humanidade. Porém a turba esvae-se: ermam bem poucos Do templo na amplidão: só lá no fundo De affumada capella, o justo as preces Ergue pio ao Senhor, as preces puras De um coração que espera, e não mentidas De labios de impostor, que engana as turbas Com seu meneio hypocrita, calcando Na alma lodosa da blasphemia o grito. Então exultarão os bons, e o ímpio, Que passou, tremerá. Em fim, de vivos, Da voz, do respirar o som confuso Vem-se verter no sussurrar das praças, E pela galilé só ruge o vento. Em trevas não ficou silenciosas O sagrado recinto: os candieiros, No gelado ambiente ardendo a custo, Espalham debeis raios que reflectem Das pedras pela alvura; o negro mocho, Companheiro do morto, horrido pio Solta lá da cornija; pelas fendas Dos sepulchros deslisa um fumo espesso, Ondêa pela nave--esvái-se: um longo Suspiro não se ouviu!--Olhai! lá se erguem De umas espectros palidos, medonhos, A quem baço clarão da luz dos mortos Ainda custa a soffrer:--eis de outras surgem Radiosos espiritos que o premio Da virtude, nos ceus, hão recebido: Alli treme ante o pobre o rico, e o forte Ante o humilde, que nelle os olhos fita Severo:--oh que tormento! infernaes dores São doces para o máu, a par do aspecto Do bom, que mudo lhe recorda os crimes. Ai!--nem paz cabe nos mortos! Entre as campas Ainda habita o remorso. Embalde, espectro, Te curvas ante as aras que insultaste: Debalde imploras o perdão celeste. Expiraste: o perdão morreu comtigo. Infeliz para sempre, a mão levanta A essa fronte gelada; entre teus olhos De azulado fulgor ampla rajada Toca--eterno signal que no perverso Do cherubim da morte a dextra estampa: Toca-a... Deus reprovou-te; a herança tua Volveu-se em maldicção: luz de esperança Para ti apagou-se: o abysmo evoca O filho seu; despenha-te no abysmo!
VII.
Vaga meditação onde arrojaste Minha imaginação!--ás horas mortas De alta noite, no templo solitario, E em congresso de mortos, quando o espanto Os resguarda co'as azas acurvadas Da vista do que vive!--Alli corria Minha mente, qual vaga a mente do homem, Que em febre ardente desvairou por sonhos, Onde se ajunctam troços de existencias, Em nebuloso quadro; ou como ondea, Entre a esperança e o susto, o moribundo, A quem do passamento o véu já cinge A amarellada fronte, e a quem já pesam Sobre os olhos as palpebras, que affrouxa Do anjo da morte o resonante grito.
VIII.
Mas troa a voz do monge, e no meu seio O coração bateu. Eia, retumbem Pela abobada aguda os sons dos psalmos, Que em dia de afflicção [ignoto vate Teceu], banhado em dôr: talvez foi elle O primeiro cantor que em varias cordas, Á sombra das palmeiras da Idumea, Soube entoar melodioso um hymno. Deus inspirava então os trovadores Do seu povo querido, e a Palestina, Rica dos meigos dons da natureza, Tinha o sceptro tambem do enthusiasmo. Virgem o genio ainda, o estro puro Louvava Deus somente, á luz da aurora, [E ao esconder-se o sol entre as montanhas De Bethoron]:--agora o genio é morto Para o Senhor, e os cantos dissolutos Do lodoso folguedo os ares rompem, Ou sussurram por paços de tyrannos, Assellados de putrida lisonja, Por preço vil, como o cantor que os tece.
IX.
Quanto é grande o meu Deus!... Té onde chega O seu poder immenso! Elle abaixou os ceus, desceu, calcando Um nevoeiro denso. Dos cherubins nas azas radiosas Sentado elle voou: E sobre turbilhões de rijo vento O mundo rodeou. Se lança á terra o olhar, a terra treme, E os mares assustados Bramem ao longe, e os montes lançam fumo, Da sua mão tocados. Se pensou no Universo, ei-lo patente Todo perante o Eterno: Se o quiz, o firmamento os seios abre, Abre os seios o inferno. Dos olhos do Senhor, homem, se podes, Esconde-te um momento: Vê onde encontrarás logar que fique Da sua vista isento: Sobe aos ceus, transpõe mares, busca o abysmo, Lá teu Deus has-de achar; Elle te guiará, e a dextra sua Lá te ha-de sustentar: Desce á sombra da noite, e no seu manto Involver-te procura; Mas as trévas para elle não são trévas; Nem é a noite escura. No dia do furor, em vão buscáras Fugir ante o Deus forte, Quando do arco tremendo, irado, impelle Setta em que pousa a morte. Mas o que o teme dormirá tranquillo No dia extremo seu, Quando na campa se rasgar da vida Das illusões o véu.