Eis o poema da minha mocidade: são os unicos versos que conservo desse tempo, em que nada neste mundo deixava para mim de respirar poesia. Se hoje me dissessem: faze um poema de quinhentos versos ácerca da Semana Sancta, eu olharia ao primeiro aspecto esta proposição como um absurdo: entretanto eu mesmo ha nove annos realizei esse absurdo. Não é esta a primeira das minhas contradiccções, e espero em Deus, e na minha sincera consciencia, que não seja a ultima.
Quando compuz estes versos, ainda eu possuia toda a vigorosa ignorancia da juventude; ainda eu cria conceber toda a magnificencia do grande drama do christianismo, e que a minha harpa estava affinada para cantar um tal objecto. Enganava-me; a Semana Sancta do poeta não saíu semelhante á Semana Sancta da Religião. O que é esta, de feito?--Um poema representado, um drama, cuja essencia é um facto universal, o maior de todos; o que veio mudar idéas, civilisação, e destinos do genero humano inteiro. Tinha eu forças para o tractar? Não por certo; porque até hoje só houve um Klopstock; talvez só um haverá até a consummação dos seculos.
Assim, eu corri as memorias do passado, e as esperanças do fucturo; chorei sobre Jerusalem, e sobre a minha patria; subi aos ceus, e desci aos infernos; saudei o sol, e as trévas da noite; em tudo, e em toda a parte busquei inspirações, menos onde as devia buscar; por que acima da minha comprehensão estava o meu objecto--a redempção, e as suas consequencias. Foi disto justamente que eu não tractei; e era disto que eu devia tractar, se o podesse ou soubesse fazer.
Porque, pois, não acompanharam estes versos os outros da primeira mocidade no caminho da fogueira! Porque publíco um poema falho na mesmissima essencia da sua concepção!
Porque tenho a consciencia de que ha ahi poesia; e porque não ha poeta, que, tendo essa consciencia, consinta de bom grado em deixar nas trévas o fructo das suas vigilias.
[Pag. 9.]
A loucura da Cruz não morreu toda
"Verbum enim Crucis pereuntibus quidem stultitia est".
Paul. Ad Corinth. 1.--1.