"Ora esse wasir cahiu no desagrado do Abdu-r-rahman, porque lhe falava verdade, e rebatia as adulações dos seus lisongeiros. Como o kalifa era generoso, o desagrado para com Mohammed converteu-se em odio; e como era justo, o odio breve se traduziu n'uma sentença de morte. A cabeça do ministro cahiu no cadafalso, e a sua memoria passou á posteridade manchada pela calumnia. Todavia o principe dos fiéis sabia bem que tinha assassinado um innocente."

As feições transtornadas de Abdu-r-rahman tomaram uma expressão horrivel de angustia: quiz falar, mas apenas pôde fazer um signal como que pedindo ao fakih que se calasse. Este proseguiu:

"Parece-me que o ouvir a leitura dos annaes do teu illustre reinado te allivia e revoca á vida. Continuarei. Podesse eu prolongar assim os teus dias, clementissimo kalifa!"

"Umeyya, quando soube da morte ignominiosa de seu querido irmão, ficou como insensato. Á saudade ajunctava-se o horror do ferrete posto sobre o nome, sempre immaculado, da sua familia. Dirigiu as supplicas mais vehementes ao príncipe dos fiéis para que ao menos rehabilitasse a memoria da pobre victima; mas soube-se que ao ler a sua carta o virtuoso principe desatara a rir…! Era, conforme lhe relatou o mensageiro, deste modo que elle ria."

E Al-muulin aproximou-se de Abdu-r-rahman, e soltou uma gargalhada.
O moribundo arrancou um gemido.

"Estás um pouco melhor … não é verdade, invencivel kalifa? Prosigamos. Umeyya quando tal soube, calou-se. O mesmo mensageiro que chegara de Korthoba partiu para Oviedo. O rei cristão de Al-djuf não se riu da sua mensagem. Dahi o pouco Radmiro tinha passado o Douro, e as fortalezas e cidades mussulmanas até o Tejo haviam aberto as portas ao rei franco, por ordem do kaid de Chantaryn. Com um numeroso esquadrão de amigos leaes este ajudou a devastar o territorio mussulmano do Gharb até Merida. Foi uma esplendida festa; um sacrifício digno da memoria de seu irmão. Seguiram-se muitas batalhas, em que o sangue humano correu em torrentes."

"Pouco a pouco Umeyya começou a rellectir. Era Abdu-r-rahman quem o offendêra. Para que tanto sangue vertido? A sua vingança fôra a de uma besta-féra; fôra estúpida e van. Ao kalifa, quasi sempre victorioso, que importavam os que por elle pereciam? O kaid de Chantaryn mudou então de systema. A guerra publica e inutil converteu-a em perseguição occulta e efficaz: á forca oppoz a destreza. Fingiu abandonar os seus alliados e sumiu-se nas trevas. Esqueceram-se delle. Quando tornou a apparecer á luz do dia ninguém o conheceu. Era outro. Vestia um burel grosseiro; cingia uma corda de esparto; os cabellos cahiam-lhe desordenados sobre os hombros e velavam-lhe metade do rosto: as faces tinha-lh'as tisnado o sol dos desertos. Corrêra o Andaluz e o Moghreb; espalhara por toda a parte os thesouros da sua família e os próprios thesouros até o ultimo dirhem, e em toda a parte deixara agentes e amigos fiéis. Depois veio viver nos cemiterios de Korthoba, juncto dos porticos soberbos do seu inimigo mortal; espiar todos os momentos em que podesse offerecer-lhe a amargura, as angustias em troca do sangue de Mohammed-Ibn-Isbak. O guerreiro chamou-se desde esse tempo Al-gafir, e o povo denominava-o Al-muulin, o sancto fakih…"

Como sacudido por uma corrente electrica, Abdu-r-rahman dera um pulo no almatrah ao ouvir estas ultimas palavras, e ficára sentado, hirto e com as mãos estendidas. Queria bradar, mas o sangue escumou-lhe nos labios, e só pôde murmurar já quasi inintelligivelmente:

"Maldicto!"

"Boa cousa é a historia,—proseguiu o seu algoz sem mudar de postura—quando nos recordâmos do nosso passado, e não achâmos lá para colher um único espinho de remorso! É o teu caso, virtuoso principe! Mas sigamos ávante. O sancto fakih Al-muulin foi quem instigou Al-barr a conspirar contra Abdu-r-rahman; quem perdeu Abdallah; quem delatou a conspiração; quem se apoderou do teu animo credulo; quem te puniu com os terrores de tantos annos; quem te acompanha no trance derradeiro, para te lembrar juncto ás portas do inferno que se foste o assassino de seu irmão, tambem o foste do proprio filho; para te dizer que se cobriste o seu nome de ignominia, tambem ao teu se ajunctará o de tyranno. Ouve pela ultima vez o rir que responde ao teu riso de ha dez annos. Ouve, ouve, kalifa!"