Entre os membros daquella lustrosa companhia distinguia-se por seu porte altivo o conde de Barcellos, D. João Affonso Tello, tio de D. Leonor, a quem nos diplomas dessa epocha se dá por excellencia o nome de fiel conselheiro. Quando os amores d'elrei com sua sobrinha começaram, elle fizera, sincera ou simuladamente, grandes diligencias para desviar o monarcha de levar ávante seus intentos. D. Fernando persistíra, todavia, nelles, e então o conde, junctamente com a infanta D. Beatriz[5] e com D. Maria Telles, irman de D. Leonor, suscitára a idéa de a divorciar de João Lourenço da Cunha. O povo sabia isto, e posto que houvesse estendido a sua má vontade a todos os parentes de Leonor Telles, odiava principalmente o conde como protector daquelles adulteros amores. Foi, portanto, nelle que se cravaram os olhos dos populares, que, tendo-se em poucas horas elevado até á altura do throno, ousavam tambem dar testemunho publico do seu odio contra o mais distincto membro da fidalguia[6].

"Velha raposa, em que te pese, não será a adultera rainha da boa terra de Portugal!—gritava um carniceiro, voltando-se para uma velha que estava ao pé delle, mas olhando de través para o conde que passava.

"Leal conselheiro de barregnices, por quanto vendeste a honra do compadre Lourenço?—perguntava um alfageme, fingindo falar com um vizinho, mas lançando tambem os olhos para D. João Affonso Tello.

"Que tendes vós com o lobo que empece ao lobo?—acudiu um lagareiro calvo e acurvado debaixo do peso dos annos.—Deixae-os morder uns aos outros, que é signal de Deus se amercear de nós."

"O que elles mereciam—interrompeu uma regaleira—era serem alagantados[7]—com boas tiras de couro cru."

"E ella, tia Dordia?—accrescentou um ferreiro.—Conheceis vós a comborça? As varas a quizera eu: uma do alcaide no chumaço; outra do coitado nas costas della![8]"

"É costume, ergo direita a pena:"—notou um procurador, que gravemente contemplava aquelle espectaculo, e que até alli guardára silencio.

Estas injurias, que, como o fogo de um pelotão, se disparavam ao longo das extensas e fundas fileiras dos populares, iam ferir os ouvidos do conde de Barcellos, que, fingindo não lhes dar attenção, empallidecia e córava successivamente, e mordia os beiços de colera.

De quando em quando o vociferar affrontoso da gentalha era affogado no ruído de risadas descompostas, mais insolentes cem vezes que as injurias; porque no rir do vulgo ha o que quer que seja tão cruel e insultuoso, que faz dar em terra o maior coração e o anímo mais robusto.

Entre os parciaes de D. Leonor que vinham naquella comitiva, viam-se, porém, muitos fidalgos e letrados, que ou eram pessoalmente seus inimigos, ou pelo menos desapprovavam alta e francamente a sua união com elrei. Diogo Lopes Pacheco era o principal entre elles, e o povo ao vê-lo passar saudou-o com um murmurio, que foi como a recompensa do velho pelas desventuras da sua vida, desventuras que devêra a um caso analogo, a morte de D. Ignez de Castro.