Feita esta jaculatoria ao Deus de Israel, D. Judas aferrolhou interiormente a porta do reposteiro, atravessou o aposento, saíu pela porta fronteira, que tambem aferrolhou, e a bulha de seus passos, que se alongavam, soou através dos corredores por onde passára Fr. Roy, até que por aquella parte do palacio tudo caíu em completo silencio.
[1] A Corredoura era uma rua, que, passando ao sopé do monte do Castello, e por detraz de S. Domingos, dava passagem do centro da cidade para Valverde, (hoje passeio publico e Salitre).
[2] Para não enfadarmos os leitores com um sem numero de notas declarâmos por uma vez que todos os costumes e objectos que descrevemos são exactos e da epocha, porque para taes descripções nos fundámos sempre em documentos ou monumentos.
[3] O maravedi velho de ouro ou de Alem Douro (chamado assim para o distinguir do maravedi de 15 soldos, que era aquelle pelo qual se regulavam as quantias dos que vingavam soldo ou maravedis, a que se chamava da Estremadura) valia 27 soldos, isto é, menos de libra e meia das antigas, cada uma das quaes era igual a 20 soldos. A dobra de ouro conhecida pelo nome vulgar de pé-terra, mandada lavrar por D. Fernando, tinha o valor legal de 6 libras, e, portanto, era mui superior nominalmente ao antigo maravedi, excedendo em preço mais de quatro vezes. Todavia, bem pelo contrario, o valor real d'uma dobra pé-terra era inferior ao maravedi velho na razão de 20 para 32 1/2. A alteração da moeda feita por D. Fernando no principio do seu reinado confundiu e transtornou completamente o antigo systema monetario: as barbudas, das quaes havia 53 em cada marco da lei de 3 dinheiros, vinham a ser iguaes ás libras novas deste rei, porque, produzindo até ahi um marco da lei de 11 dinheiros 27 libras, ficou em a nova moedagem produzindo 165, o que dada a differença do toque entre o marco de lei e o marco das barbudas, tornava cada uma destas a mesma cousa que a libra. Por outra parte, equivalendo cada libra a 20 soldos, moeda sem valor intrinseco, vinha o marco de lei a ser representado por 3.900 soldos, e assim o antigo maravedi d'ouro correspondente á vigesima parte de um marco de prata, correspondia realmente a 195 soldos, ao passo que cada pé-terra, sendo o mesmo que 6 libras, não valia mais de 120 soldos, isto é, ficava para aquella moeda na razão de 20 para 32 1/2.
[4] Os cavalleiros quando se punham a caminho costumavam cavalgar em mulas, como animaes mais rijos e possantes que os cavallos; nestes montava um pagem ou donzel. Veja-se principalmente a lei de D. Afonso III sobre os que vão a cas de elrei.
[5] Aquelles que não conhecerem as opiniões, estado de civilisação, e costumes da idade média, medirão o thesoureiro-mór D. Judas por um ministro de fazenda moderno, como, se não nos engana a memoria, lhe chama com uma ignorancia deliciosa o marquez de Pombal em uma lei sobre os christãos-novos, e acharão inverosimil a scena antecedente, posto que esteja bem longe d'isso. A falta de christãos habilitados para tractarem materias de fazenda publica, obrigou os reis portuguezes a despresarem a lei das côrtes de 1211, que os inhibia de empregarem judeus no seu serviço. Mas esta necessidade não podia destruir o profundo desprezo em que se tinha esta raça, olhada como abominavel em consequencia das convicções politicas e religiosas daquelles tempos, despreso que em grande parte assentava em bons fundamentos. A idéa que se fazia de um judeu na idade média acha-se expressa na lei 23.ª daquellas côrtes, e pinta melhor o pensar dessas eras a similhante respeito do que tudo quanto podessemos aqui escrever. "Os quaes judeus (diz o legislador) assy como testemunho da morte de Jesu-Christo devem a seer defesus, solamente porque som homeês." Juncte-se a isto o caracter cruel, hypocrita e cubiçoso de D. Leonor Telles, tão excellentemente pintado pelo grande poeta chronista Fernão Lopes, e poder-se-ha então avaliar devidamente a verosimilhança desta scena de imaginação no meio de outras scenas da vida real desses tempos.
MESTRE BARTHOLOMEU CHAMBÃO
Fr. Roy, saíndo da casa das arcas, atravessára os corredores vizinhos; mas, em vez de seguir o que dava para o passadiço de S. Martinho, tomára por uma escadinha escura aberta no topo da estreita passagem anterior a elle. Esta escadinha descia para o atrio do paço. O beguino, habituado pelo seu ministerio a entrar na morada real ás horas mortas, e a saír nas menos frequentadas, sabia por diuturna experiencia que a porta principal devia estar aberta, mas ainda erma, ao mesmo tempo que a igreja, por onde entrára, já começaria a povoar-se de fiéis, porque, como é facil de suppôr, as igrejas eram naquella epocha mais frequenfadas que hoje. Desceu, pois, com passo firme, resolvido a encaminhar-se ao rocío, e a espalhar entre os amotinados a noticia da partida d'elrei.
Mas uma difficuldade imprevista lhe embargou os passos. Ou fosse que os acontecimentos da vespera obrigassem a maiores cautelas, não havendo ainda então exercito permanente, nem guardas pagas para defensão da pessoa real, cuja melhor protecção estava na propria espada, ou fosse por qualquer outro motivo, a porta ainda se não abríra! O beguino hesitou se devia retroceder para sair pela igreja, se esperar. As considerações que o tinham movido a seguir este caminho o obrigaram a ficar. Mettido no estreito e escuro vão da escada, o ichacorvos assemelhava-se, involto nas suas roupas de burel, e reluzindo-lhe os olhos á meia luz que dava o pateo interior, a um moderno funccionario, que hoje, nesses mesmos paços, e n'um desvão igual, talvez no mesmo sitio, mostra aos que entram o rosto banhado na hediondez da sua alma, esperando que a vindicta publica o convide a algum banquete de carne humana, e no esperar atroz rodêa com as garras os ferros do seu covil, como um tigre captivo. O espia era alli, por assim dizer, uma preexistencia, uma harmonia pre-estabelecida do algoz.
Passára obra de meia hora, e o beguino começava a impacientar-se mui seriamente quando sentiu pés de cavalgadura no pateo interior do edificio. D'ahi a pouco um donzel, trazendo na mão uma desconforme chave, e as rédeas de uma valente mula enfiadas no braço, chegou á porta e começou a abri-la. Era um dos donzeis d'elrei. Costumado a disfarçar a sua frequente entrada no paço sob a capa da mendicidade, e habituado a estender a mão á espera de alguns soldos que devotamente lhe atiravam senhores, cavalleiros e escudeiros, ao que elle retribuia com a longa lenda das suas orações em aleijado latim, Fr. Roy era acceito a quasi todos os moradores da casa d'elrei, que respeitavam a sua apparente sanctidade. Por isso, saindo do seu desvão, encaminhou-se para a porta.