"Traidor é elle, que nos ha mentido como um pagão!—bradou o tanoeiro sopesando o montante.—Mas que se guarde de outra vez trazer a Lisboa a adultera! Rainha ou barregan, arrancar-lhe-hemos os olhos. A arraya-miuda foi escarnida; mas não o será em vão. Que dizeis vós outros, honrados burguezes?"
"Escarnidos, escarnidos!—respondeu com grande grila o tropel.—Mas à fé que nunca a adultera será rainha de Portugal. Morra a comborça!"
E no meio da alarida, as pontas das lanças e os largos ferros das almarcovas agitadas nos ares scintillavam aos raios do sol oriental como um vasto brazido.
"Ao rocío! ao rocío!—gritou mestre Bartholomeu.—Vamos, rapazes: já que não fazemos aqui nada, ao menos que o povo não seja por mais tempo burlado!"
E pondo o montante ás costas, mestre Bartholoraeu tomou por uma das ruas que davam para a banda de Valverde, seguido da turbamulta, e sem fazer caso de Fr. Roy, que procurava rete-lo, ponderando que ainda poderia alcançar elrei e fazê-lo retroceder. O tanoeiro, porém, não tinha valor para affrontar-se face a face com D. Fernando, e por isso fingiu não ouvir o beguino, que dentro de alguns minutos se achou só no meio do terreiro calado e deserto.
Entretanto juncto a S. Domingos, se bem que a rixa começada entre os nobres partidários de Leonor e Fernão Vasques se houvesse desvanecido, a agitação dos populares, cujo numero crescia continuamente, não tinha diminuido. Encostado a um dos pilares do alpendre, o alfaiate ora lançava os olhos de revés para os senhores da côrte e conselho, que, esperando por elrei, passeiavam de um para outro lado, ora os espraiava por aquelle mar de vultos humanos, que elle sabía poder agitar ou tornar immoveis com uma palavra ou com um simples aceno. Semelhante á hora que precede a procella, em que apenas se vêem correr na atmosphera abalada os castellos encontrados de nuvens densas e negras, e se ouve o estourar dos trovões roufenhos e prolongados, aquella hora que então passava era espantosa e ameaçadora de estragos, sobretudo quando, após um rugido terrivel do tigre popular, se fazia na praça apinhada de gente um silencio ainda mais temeroso e tetrico.
Foi n'uma destas interrupções do motim que um pagem, saíndo ao galope do lado da corredoura, veio apear-se juncto do alpendre, e tirando da cincta um pergaminho aberto o entregou ao infante D. Diniz.
Este fitou os olhos na escriptura, descórou subitamente, e entregou o pergaminho a Diogo Lopes, dizendo-lhe ao mesmo tempo em voz baixa:
"Estamos perdidos!"
Diogo Lopes leu o conteúdo naquelle escripto fatal, e no mesmo tom respondeu ao infante: