"De um lado a colera do povo: do outro os mandados delrei—disse, apertando com a mão a fronte, o velho conselheiro de Affonso ÍV.—Resta-nos só um arbitrio."
"Dizei, dizei!—clamaram a um tempo todos, á excepcão do conde de Barcellos, que fitou nelle os olhos desconfiados.
"É necessário que annunciemos a nova da partida d'elrei, e que sejamos os primeiros a affeíar este procedimento: é necessário que vamos adiante da indignação dos peòes. Depois dir-lhes-hemos que, burlados como elles, nada fazemos aqui. Então apartar-nos-hemos sem susto, e sairemos da cidade como podérmos, na certeza de que não serei eu o ultimo, apesar de velho, que cruze as portas da alcaçova de Santarem."
"Mas quem ha-de falar em nosso nome?—perguntou Gil d'Ocem.
"No vosso, mestre Gil das Leis!—interrompeu o conde de Barcellos.—Nem o receio das affrontas do alguns milhares de sandeus, nem o da propria morte me obrigaria a cuspir maldicções sobre o nome daquelle a quem uma vez jurei preito e leal menagem."
"Viram impendere vero nemo tenetur"—replicou Gil d'Ocem—"ou, como quem o dissesse por linguagem, ninguém é obrigado a deixar-se matar por amor da verdade ou de seu preito. Vós fazei o que vos aprouver."
Á auctoridade de um texto latino trazido assim a ponto por um tão insigne doutor, não havia resistir. Os fidalgos e conselheiros approvaram quasi unanimente o alvitre de Diogo Lopes.
"Mas quem ha-de falar ao povo?—insistiu o mestre em leis, que não parecia excessivamente inclinado a incumbir-se dessa gloriosa tarefa.
"Eu, se assim o quizerdes"—replicou immediatamente Diogo Lopes.
O manhoso cortesão vira claramente que a partida d'elrei transtornava todos os seus desenhos: todavia calculára n'um momento como, sem suscitar a indignação de Fernão Vasques, e por consequencia alguma revelação perigosa, podia salvar-se e ao infante. Logo que elrei se esquivára á influencia do povo, de cuja ousadia o velho esperava tudo, o casamento de D. Leonor era inevitavel, e ainda suppondo, o que não era de esperar, que o tumulto fosse avante, que Lisboa se rebellasse claramente contra D. Fernando, o resultado da guerra civil tinha muito maior probabilidade de ser favoravel a elrei, senhor do resto de Portugal, que ao povo, desprovido naquella conjunctura dos principaes meios com que poderia sustentar uma lucta intestina. Assim, o alvitre que offerecêra para a salvação dos cortezãos era só para se haver de salvar a si, conservando ao mesmo tempo a affeição dos cabeças da revolta, sem que o meio que para isso devia empregar o fizesse decahir da graça de D. Fernando.