Era ella a mui nobre e virtuosa minha D. Leonor: elle o mui excellente e esclarecido rei D. Fernando de Portugal.
D. Leonor Telles tinha razão para rir.
Durante o cêrco de Lisboa uma voz, verdadeira ou falsa, se espalhára de que vários moradores da cidade estavam preitejados com elrei de Castella para lhe abrirem uma das portas. Dava força a taes suspeitas o acharem-se no campo castelhano Diogo Lopes Pacheco e D. Diniz, que com elle se haviam ajunctado na sua entrada em Portugal, e as desconfianças recahiam naturalmente sobre aquelles que dous annos antes tinham seguido o partido contrario a D. Leonor, de que o infante e o velho privado de D. Affonso IV eram cabeças. Assim a popularidade dos parciaes de D. Diniz tinha diminuido consideravelmente, porque o povo, em vez de attribuir a sua ruina ás causas remotas, ás paixões insensatas de D. Leonor e á imprudencia d'elrei, só nas suggestòes de Diogo Lopes e do infante via agora a origem de todos os males presentes, e o odio que contra os dous havia concebido se estendêra a todos os que cria serem-lhes affeiçoados.
Apenas, portanto, se divulgou a noticia da intentada traição, o povo furioso correu ás moradas daquelles, que, como fica dicto, lhe eram mais suspeitos. Seguiu-se uma festa de cannibaes, festa de vulgacho em qualquer tempo e logar que elle reine. Aquelles que não poderam provar de modo innegavel a sua innocencia, foram mettidos aos mais crueis tormentos, onde nenhum se confessou culpado. Um desgraçado, contra o qual eram mais vehementes as desconfianças, foi arrastado pelas ruas e feito depois em pedaços: "outro—diz o chronísta[1]—tomarom e pozerom-no na fumda d'huum engenho, que estava armado ante a porta da see; e quando desfechou lançono em cima dessa egreja antre duas torres dos sinos que hi ha, e quando cahio acharomno vivo; e tomaromno outra vez e pozeromno na fumda do engenho, e deitouho contra o mar, omde elles desejavom, e assi acabou sua vida."
Era por isso que D. Leonor olhára para o engenho, e se ríra. O próprio povo tinha pagado uma parte das arrhas do seu casamento.
A noite descêra entretanto. A cavalgada parou no terreiro de S. Martinho, e á luz de muitas tochas parte daquella multidão escoou-se pouco a pouco por diversas ruas, emquanto outra parte subia á sala principal, ou se derramava pelos aposentos dos paços, cujo silencio de quasi dous annos, depois du fuga d'elrei com D. Leonor Telles, era a primera vez interrompido pelo ruido de uma côrte numerosa, mas bem differente da antiga. A rainha havia quasi exclusivamente chamado a ella os seus parentes, ou aquelles fidalgos que lhe tinham dado provas não equivocas de sincero affeiçcão e substituíra á severidade antiga do paço todo brilho de um luxo insensato, e o que mais era, a dissoluçao dos costumes, que quasi sempre acompanha esse luxo. Depois de uma ceia esplendida, como o devia ser nesta côrte voluptuaria, apenas ficára na camara real D. Fernando e sua mulher, o conde de Barcellos D. Joâo, D. Gonçalo Telles, irmão de D. Leonor e um donzel da rainha, filho bastardo de outro bastardo, do prior do Hospital Alvaro Gonçalves Pereira, e que ella mais que nenhum estimava. Estas personagens achavam-se reunidas no mesmo aposento onde dous annos antes o beguino Fr. Roy viera revelar á então amante de D. Fernando os intentos de seus inimigos. Era deste aposento que ella saíra fugitiva e amaldicçoada do povo. Mas era ahi também que ella vinha depois de tantos sustos, de tantas difficuldades vencidas, de tanto sangue derramado por sua causa, repousar triumphadora, segura já na fronte a corôa real. Tudo estava do mesmo modo, salvo as personagens, que em parte eram diversas e em diversa situação.
Elrei, habitualmente alegre, se assentára triste na cadeira de espaldas, unico movel do aposento, e encostára a cabeça sobre o punho cerrado: D. Leonor, posto que naturalmente loquaz[2], assentada no estrado defronte de D. Fernando, conservava-se tambem em silencio: em pé, um pouco atraz da cadeira d'elrei, o donzel querido de D. Leonor, com os olhos fitos nella, esperava attento as determinações de sua senhora: ao longo da sala o conde de Barcellos e D. Gonçalo Telles passeavam lentamente, conversando em voz submissa e pausada.
Mas a taciturnidade de cada uma das duas personagens principaes tinha bem differentes motivos.
A imagem da sua capital destruida havia-se embebido na alma d'elrei como um remorso cruel. Pelas suggestões de seu tio adoptivo consentíra que D. Henrique viesse livremente destruir a opulenta Lisboa. Elle, neto de Affonso IV, rejeitára os soccorros de seus valorosos vassallos, que de toda a parte haviam corrido, lança em punho, para combaterem debaixo da signa real, ao esvoaçar dos pendões inimigos: elle, cavalleiro, fôra vil instrumento de vingança covarde: elle, rei de Portugal, fôra o destruidor do seu povo; elle, portuguez, recebêra o nome de fraco de um castelhano, sem que ousasse desmentir a affronta[3]! Estas idéas, que o tinham assaltado ao atravessar as ruinas dos arrabaldes, tomavam maior vulto e força na solidão e no silencio. O pobre monarcha, bom, mas excessivamente brando e irresoluto, tinha sobeja razão de estar triste. A lua, que começava a subir, dava de chapa, através da janella oriental do aposento, no rosto de D. Fernando, como dous annos antes, quasi a essa hora, lhe allumiára tambem as faces demudadas de afflicção. Este logar, esta luz, e esta hora eram para elle fataes!
Nesse momento passos mais rapidos e mais pesados que os dos dous fidalgos começaram a soar na sala contigua: quem quer que era passeava também.