"Tardaste muito, e foste menos pontual do que costumas, quando annuncias a tua vinda a hora fixa, Al-muulin! Uma visita tua é sempre triste como o teu nome. Nunca entraste a occultas em Azzahrat senão para me saciares de amargura; mas apesar disso eu não deixarei de abençoar a tua presença, porque Algafir—dizem-no todos e eu o creio—é um homem de Deus. Que vens annunciar-me, ou que pretendes de mim?"
"Amir-al-muminin[1], que póde pretender de ti um homem cujos dias se passam á sombra dos tumulos pelos cemiterios, e a cujas noites de oração basta por abrigo o portico de um templo; cujos olhos tem queimado o chôro, e que não esquece um instante que tudo neste desterro, a dôr e o goso, a morte e a vida, está escripto lá em cima? Que venho annunciar-te?!… O mal; porque só mal ha na terra para o homem, que vive como tu, como eu, como todos, entre o appetite e o rancor; entre o mundo e Eblis; isto é, entre os seus eternos e implacaveis inimigos!"
"Vens, pois, annunciar-me uma desventura?!… Cumpra-se a vontade de Deus. Tenho reinado perto de quarenta annos, sempre poderoso, vencedor e respeitado; todas as minhas ambições tem sido satisfeitas, todos os meus desejos preenchidos; e todavia nesta longa carreira de gloria e prosperidade só fui inteiramente feliz quatorze dias da minha vida[2]. Pensava que este fosse o decimo quinto. Devo acaso apaga-lo do registo em que conservo a memoria delles, e em que já o tinha escripto?"
"Pódes apaga-lo:—replicou o rude fakih—pódes, até, rasgar todas as folhas brancas que restam no livro. Kalifa! vês estas faces sulcadas pelas lagrymas? vês estas palpebras requeimadas por ellas? Duro é o teu coração, mais que o meu, se em breve as tuas palpebras e as tuas faces não estão semelhantes ás minhas."
O sangue tingiu o rosto alvo e suavemente pallido de Abdu-r-rahman: os seus olhos serenos como o ceu, que imitavam na côr, tomaram a terrivel expressão que elle costumava dar-lhes no revolver dos combates, olhar esse que só por si fazia recuar os inimigos. O fakih não se moveu, e poz-se a olhar também para elle fito.
"Al-muulin, o herdeiro dos Beni-Umeyyas póde chorar arrependido de seus erros diante de Deus; mas quem disser que ha neste mundo desventura capaz de lhe arrancar uma lagryma, diz-lhe elle que mentiu!"
Os cantos da bôca de Al-gafir encresparam-se com um quasi imperceptivel sorriso. Houve um largo espaço de silencio. Abdu-r-rahman não o interrompeu: o fakih proseguiu:
"Amir-al-muminin, qual de teus dous filhos amas tu mais? Al-hakem, o successor do throno, o bom e generoso Al-hakem, ou Abdallah, o sabio e guerreiro Abdallah, o idolo do povo de Korthoba?"
"Oh,—replicou o kalifa sorrindo—já sei o que me queres dizer. Devias prever que a nova viria tarde, e que eu havia de sabe-lo… Os christãos passaram a um tempo as fronteiras do norte e do oriente. Meu velho tio Al-mod-dhafer já depoz a espada victoriosa, e crês necessario expôr a vida de um delles aos golpes dos infiéis. Vens prophetisar-me a morte do que partir. Não é isto? Fakih, creio em ti, que és acceito ao Senhor; mas ainda creio mais na estrella dos Beni-Umeyyas. Se eu amasse um mais do que outro não hesitaria na escolha: fôra esse que eu mandára, não á morte, mas ao triumpho. Se, porém, essas são as tuas previsões, e ellas tem de realisar-se, Deus é grande! Que melhor leito de morte posso eu desejar a meus filhos do que um campo de batalha em al-djihed[3] contra os infiéis?"
Al-gafir escutou Abdu-r-rahman sem o menor signal d'impaciencia.
Quando elle acabou de falar repetiu tranquillamente a pergunta: