Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, já se viu regado de sangue: já sobre elle se ouviram gritos de combatentes, ancias de moribundos, estridor de habitações incendiadas, sibilar de setas, e estrondo de machinas de guerra. Claros signaes de que ahi viveram homens; porque é com estas balisas que elles costumam deixar assignalados os sitios que escolheram para habitar na terra.

O castello de Faria com suas torres e ameias, com sua barbacan e fosso, com seus postigos e alçapões ferrados, campeou ahi como dominador dos valles vizinhos. Castello real da meia idade, a sua origem some-se nas trevas dos tempos que já lá vão ha muito: mas a febre lenta que costuma devorar os gigantes de marmore e de granito, o tempo, coou-lhe pelos membros, e o antigo alcacer das eras dos reis de Leão desmoronou-se e cahiu. Ainda no seculo dezesete parte da sua ossada estava dispersa por aquellas encostas: no seculo seguinte já nenhuns vestigios delle restavam, segundo o testemunho de um historiador nosso. Um eremiterio fundado pelo celebre Egas Moniz era o unico eccho do passado que ahi restava. Na ermida servia de altar uma pedra trazida de Ceuta pelo primeiro duque de Bragança D. Affonso. Era esta lagea a mesa em que costumava comer Salat-ibn-Salat, ultimo senhor de Ceuta. D. Affonso, que seguíra seu pae D. João I na conquista daquella cidade, trouxe esta pedra entre os despojos que lhe pertenceram, levando-a comsigo para a villa de Barcellos, cujo conde era. De mesa de banquetes mouriscos converteu-se essa pedra em ara do christianismo. Se ainda existe, quem sabe qual será o seu futuro destino?

Serviram os fragmentos do castello de Faria para se construir o convento edificado ao sopé do monte. Assim se converteram em dormitorios as salas de armas, as ameias das torres em bordas de sepulturas, os umbraes das balhesteiras e postigos em janellas claustraes. O ruído dos combates calou no alto do monte, e nas faldas delle alevantou-se a harmonia dos psalmos e o sussurro das orações.

Este antigo castello tinha recordações de gloria. Os nossos maiores, porém, curavam mais de practicar façanhas, do que de conservar os monumentos dellas. Deixaram por isso, sem remorsos, sumir nas paredes de um claustro pedras que foram testemunhas de um dos mais heroicos feitos de corações portuguezes.

Reinava entre nós D. Fernando. Este principe, que tanto degenerára de seus antepassados em valor e prudencia, fôra obrigado a fazer paz com os castelhanos depois de uma guerra infeliz, intentada sem justificados motivos, e em que esgotou inteiramente os thesouros do estado. A condição principal, com que se poz termo a esta lucta desastrosa, foi que D. Fernando casasse com a filha d'elrei de Castella: mas brevemente a guerra se accendeu de novo; porque D. Fernando, namorado de D. Leonor Telles, sem lhe importar o contracto de que dependia o repouso dos seus vassallos, a recebeu por mulher, com affronta da princesa castelhana. Resolveu-se o pae a tomar vingança da injuria, ao que o aconselhavam ainda outros motivos. Entrou em Portugal com um exercito, e recusando D. Fernando acceitar-lhe batalha, veiu sobre Lisboa e cercou-a. Não sendo o nosso proposito narrar os successos deste sitio, volveremos o fio do discurso para o que succedeu no Minho.

O Adiantado de Galliza, Pedro Rodriguez Sarmento, entrou pela provincia de Entre-Douro-e-Minho com um grosso corpo de gente de pé e de cavallo, emquanto a maior parte do exercito portuguez trabalhava ou por defender ou por descercar Lishoa. Prendendo, matando e saqueando, veiu o Adiantado até as immediações de Barcellos sem achar quem lhe atalhasse o passo; aqui, porém, saíu-lhe ao encontro D. Henrique Manuel, conde de Cêa, e tio d'elrei D. Fernando, com a gente que pôde ajunctar. Foi terrivel o conflicto; mas por fim foram desbaratados os portuguezes, cahindo alguns nas mãos dos castelhanos.

Entre os prisioneiros contava-se o alcaide-mór do castello de Faria, Nuno Gonçalves. Saíra este com alguns soldados para soccorrer o conde de Cêa, vindo assim a ser companheiro na commum desgraça. Captivo, o valoroso alcaide pensava em como salvaria o castello d'elrei seu senhor das mãos dos inimigos. Governava-o em sua ausencia um seu filho; e era de crer que, vendo o pae em ferros, de bom grado désse a fortaleza para o libertar, muito mais quando os meios de defensão escaceavam. Estas considerações suggeriram um ardil a Nuno Gonçalves. Pediu ao Adiantado que o mandasse conduzir ao pé dos muros do castello; porque elle com suas exhortações faria com que seu filho o entregasse sem derramamento de sangue.

Um troço de bésteiros e de homens d'armas subia a encosta do monte da Franqueira, levando no meio de si o bom alcaide Nuno Gonçalves. O Adiantado de Galliza seguia atraz com o grosso da hoste, e a costaneira ou ala direita, capitaneada por João Rodriguez de Viedma, se estendia rodeando o castello pelo outro lado. O exercito victorioso ía tomar posse do castello de Faria, que lhe promettêra dar nas mãos o seu captivo alcaide.

De roda da barbacan alvejavam as casinhas da pequena povoação de Faria: mas silenciosas e ermas. Os seus habitantes, apenas enxergaram ao longe as bandeiras castelhanas, que esvoaçavam soltas ao vento, e viram o refulgir scintillante das armas inimigas, abandonando os seus lares, foram-se acolher no terreiro que se estendia entre os muros negros do castello e a cerca exterior ou barbacan.

Nas torres os atalaias vigiavam attentamente a campanha, e os almocadens corriam com a rolda[1] pelas quadrellas do muro, e subiam aos cubellos collocados nos angulos das muralhas. O terreiro aonde se haviam acolhido os habitantes da povoação, estava cuberlo de choupanas colmadas, nas quaes se abrigava a turba dos velhos, das mulheres, e das creanças, que alli se julgavam seguros da violencia de inimigos desapiedados.