E, com effeito, Fr. Lourenço, volvendo os olhos para o cimo de um outeiro, viu uma lustrosa companhia de cavalleiros, que com grande açodamento descia para o vallc do mosteiro.

[1] Perdi o azeite e o trabalho: expressão proverbial.

[2] D. Leonor Telles, mulher d'elrei D. Fernando.

[3] Architectos sarracenos se espalharam pela Grecia, Sicilia, e outros paizes, durante certo tempo: um avultado numero de artifices christãos, principalmente gregos, se ajunctaram com elles, e formaram todos uma corporação, que tinha suas leis e estatutos secretos, e cujos membros se reconheciam por signaes. Esta foi a origem da Maçonaria. Conversation's Lexicon.

MESTRE OUGUET.

Uma das innumeraveis questões, que, em nosso entender, eternamente ficarão por decidir, é a que versa sobre qual dos dous dictados—voz do povo é voz de Deus—ou—voz do povo é voz do diabo—seja o que exprima a verdade. É indubitavel que o povo tem uma especie de presciencia innata, d'instincto divinatorio. Quantas vezes, sem que se saiba como ou porque, corre voz entre o povo, que tal navio saído do porto, tão rico de mercadorias como de esperanças, se perdeu em tal dia e a tal hora em praias estranhas. Passa o tempo, e a voz popular renlisa-se com exacção espantosa. Assim de batalhas; assim de mil factos. Quem dá estas noticias? Quem as trouxe? Como se derramaram? Mysterio é esse, que ainda ninguem soube explicar. Foi um anjo? Foi um demonio? Foi algum feiticeiro? Mysterio. Não ha, nem haverá, talvez, nunca, philosopho que o explique; salvo se tal phenomeno é uma das maravilhas do magnetismo animal. Esse meio inintelligivel de dar solução a tudo o que se não entende, é acaso a unica via de resolver a dúvida. Se o é, ahi damos mais um osso a roer aos physicos do magnetismo.

Foi o caso: quando a cavalgada, de que fizemos menção no fim do antecedente capitulo, vinha descendo a encosta sobranceira á planicie do mosteiro, entre o povo que estava dentro da igreja, impaciente já pela demora do auto, começou-se a espalhar um sussurro, que cada vez crescia mais: o motivo delle não era facil sabe-lo: nenhuma novidade occorrêra; ninguem tinha entrado ou saido. De repente toda aquella multidão se agitou, remoinhou pela igreja, e principiou a borbulhar pelo portal fóra, como por bico de funil o liquido deitado de alto. Tinham sabido que elrei chegava, e todos queriam vê-lo descalvagar, porque D. João I, plebeu por herança materna, nobre por ser filho do D. Pedro I, rei eleito por uma revolução, e confirmado por cincoenta victorias, era o mais popular, o mais amado, e o mais acatado de todos os reis da Europa. Vinha montado em uma possante mula, e assim mesmo em outras os fidalgos e cavalleiros de sua casa. Trazia vestida sobre a cota uma jórnea de veludo carmesim, monteira preta, e nebri em punho, em maneira de caçada. Chegando á porta do mosteiro, onde o esperava já Fr. Lourenco com parte da communidade, apeou-se de um salto, e com rosto risonho e a mão no barrete, agradeceu sua cortezia e amor aos populares, que gritavam apinhados à roda delle: —"viva D. João I de Portugal: morram os castelhanos!"—grito absurdo, mas semelhante aos vivas de todos os tempos; porque o povo, bem como o tigre, mistura sempre com o rugido de amor o bramido que revela a sua indole sanguinaria.

Por baixo daquellas suberbas arcadas desappareceu brevemente elrei da vista da multidão, que tornou a sumir-se no templo para ver o auto, que não podia tardar.

"Mui receioso estava que vossa real senhoria nos não honrasse nosso auto; porque o sol não tarda a sumir-se no poente:—dizia Fr. Lourenço a elrei, a cujo lado ia para o guiar ao seu aposento.

"Bofé, mui devoto padre prior, que por pouco estive a ponto de ter que levar a vossos pés mais uma mentira com os outros peccados, que me não fallecem, se ámanhan me quizesse confessar ao meu antigo confessor:—tornou-lhe elrei sorrindo-se.