"Lembrae-vos, cavalleiro,—disse elle—de que falaes com D. João
I."
"Cuja corôa—acudiu o cégo—lhe foi posta na cabeça por lanças, entre as quaes reluzia o ferro da que eu brandia. D. João I é assaz nobre e generoso, para não se esquecer de que nessas lanças estava escripto:—os vassallos portuguezes são livres."
"Mas—tornou elrei—os vassallos que desobedecem aos mandados daquelle em cuja casa tem acostamento[3], podem ser privados de sua moradia…"
"Se dizeis isso pela que me déstes, tirae-m'a; que não vo-la pedi eu. Não morrerei de fome; que um velho soldado de Aljubarrota achará sempre quem lhe esmole uma mealha; e quando haja de morrer á mingua de todo humano soccorro, bem pouco importa isso a quem vê arrancarem-lhe, nas bordas da sepultura, aquillo por que trabalhou toda a vida, um nome honrado e glorioso."
Dizendo isto, o velho levou a manga do gibão aos olhos baços, e embebeu nella uma lagryma mal sustida. Elrei sentiu a piedade coar-lhe no coração comprimido de despeito, e dilatar-lh'o suavemente. Uma das dores d'alma, que em vez de a lacerar a consolam, é sem duvida a compaixão.
"Vamos, bom cavalleiro,—disse elrei pondo-se em pé—não haja entre nós doestos. O architecto do mosteiro do Sancta Maria vale bem o seu fundador! Houve um dia em que nós ambos fomos pelejadores: eu tornei celebre o meu nome, a consciencia m'o diz, entre os principes do mundo, porque segui avante por campos de batalha; ella vos dira também que a vossa fama será perpetua, havendo trocado a espada pela penna, com que traçastes o desenho do grande monumento da independencia e da gloria desta terra. Rei dos homens do acceso imaginar, não desprezeis o rei dos melhores cavalleiros, os cavalleiros portuguezes! Tambem vós fostes um delles; e negar-vos-heis a proseguir na edificação desta memoria, desta tradição de marmore, que ha-de recordar aos vindouros a historia de nossos feitos? Mestre Affonso Domingues, escutae os ossos de tantos valentes, que vos accusam de trahirdes a boa e antiga amizade: vem de todos os valles e montanhas de Portugal o soído desse queixume de mortos; porque, nas contendas da liberdade, por toda a parte se verteu sangue e foram semeados cadaveres de cavalleiros! Eia, pois: se não perdoaes a D. João I uma supposta affronta, perdoae-a ao Mestre d'Aviz, ao vosso antigo capiião, que em nome da gente portugueza vos cita para o tribunal da posteridade, se refusaes consagrar outra vez á pátria vosso maravilhoso ingenho, e que vos abraça como antigo irmão nos combates, porque certo crê que não quereis perder na vossa velhice o nome de bom e honrado portuguez."
Elrei parecia grandemente commovido, e talvez involuntariamente, lançou um braço ao redor do pescoço do cégo, que soluçava e tremia sem soltar uma só palavra.
Houve uma longa pausa: todos se tinham posto em pé quando elrei se erguêra, e esperavam anciosos o que diria o velho. Finalmente este rompeu o silencio:
"Vencestes, senhor rei, vencestes!… A abobada da casa capitular não ficará por terra. Oh meu mosteiro da Batalha, sonho querido de quinze annos de vida entregues a cogitações, a mais formosa das tuas imagens será realisada, será duradoura como a pedra em que vou estampa-la! Senhor rei, as nossas almas entendem-se: as unicas palavras harmoniosas e inteiramente suaves, que tenho ouvido ha muitos annos, são as que vos saíram da bôca: só D. João I comprehende Affonso Domingues; porque só elle comprehende a valia destas duas palavras formosissimas, palavras de anjos—patria e gloria. A passada injuria a vossos conselheiros a attribui sempre, que não a vós, posto que de vós, que ereis rei, me queixasse: varre-la-hei da memoria, como o entalhador varre as lascas e a pedra moída pelo cinzel de cima do vulto, que entalhou em fuste de columna arrendada. Que me restituam os meus officiaes e obreiros portuguezes; que portuguez sou eu, portugueza a minha obra! De hoje a quatro mezes podeis voltar aqui, senhor rei, e ou eu morrerei, ou a casa capitular da Batalha estará firme, como é firme a minha crença na immortalidade e na gloria."
Elrei apertou então entre os braços o bom do cégo, que procurava ajoelhar a seus pés. Era a attracção de duas almas sublimes, que voavam uma para a outra. Por fim D. João I fez um signal ao pagem, que se aproximou: