Fr. Lourenço saíu, e d'ahi a pouco voltou acompanhado do architecto, que um rapaz guiava pela mão.
"Guarde-vos Deus, mestre Affonso Domingues!—disse elrei, vendo entrar o cégo—Aqui me tendes para vêr acabada a feitura da mirifica abobada do capitulo de Sancta Maria, cujos simples não quizestes tirar senão em minha presença."
"Beijo-vo-las, senhor rei, pela mercê: dous votos fiz se levasse a cabo esta feitura; era esse um delles…"
"E o outro?—atalhou elrei.
"O outro, dir-vo-lo-hei em breve; mas por ora permitti que para mim o guarde."
"São negocios de consciencia:—acudiu o prior.—Elrei não quer, por certo, fazer-vos quebrar vosso segredo."
D. João I fez um signal de assentimento ao parecer do seu antigo padre espiritual.
Elrei, o prior, e o architecto ainda se demoraram um pedaço falando ácerca da obra, e do que cumpria fazer no proseguimento della; mas o cégo dissera o que quer que fôra em voz baixa ao rapaz que o acompanhava, o qual saíra immediatamente, e que só voltou quando os tres acabavam a conversação.
"Fernão d'Evora—disse o cégo, sentindo-o outra vez ao pé de si—fizeste o que te ordenei, e deste a teu tio Martim Vasques o meu recado?"
"Senhor, si! Envia-vos elle a dizer que tudo está prestes."