"Que tão honrado mestre corra parelhas no risco com esses perros castelhanos cousa é que se não póde soffrer: mas o voto é voto, senão…"

Estas palavras partiam da bôca d'uma gorda velha, cuja tez avermelhada dava indicios de compleição sanguinea e irritavel, e que de mãos mettidas nas algibeiras, na frente de uma das alas do povo presenceava o caso.

"Tendes razão, tia Brites d'Almeida; e por ser voto me calo eu:—acudiu elrei, voltando-se para a velha.—Mas juro a Christo, que estou espantado de só agora vos vêr! Porque me não viestes falar?"

"Perdoe-me vossa mercê:—replicou a velha.—Eu vim trazer pão á feira, e ahi souhe da chegada de vossa real senhoria. Corri … se eu correria para vos falar! Mas estes bôcas abertas não me deixaram passar. Abrenuncio! Depois estive a olhar… Parecieis-me carregado de semblante. Que é isso? Temos novas voltas com os excommungados castelhanos? Se assim é, trosquiae-mos outra vez por Aljubarrota, que a pá não se quebrou nos sete que mandei de presente ao diabo, e ainda lá está para o que der e vier."

Soltando estas palavras, a velha tirou as mãos das algibeiras, e cerrando os punhos, ergueu os braços ao ar, com os meneios de quem já brandia a tremebunda e patriotica pá de forno, que hoje é gloria e brasão da gothica villa de Aljubarrota.

"Podeis dormir descançada, tia Brites:—respondeu elrei, sorrindo-se.—Bem sabeis que sou portuguez e cavalleiro, e a gente de nossa terra é cortez: elrei de Castella veio visitar-nos varias vezes: e agora eu ando na demanda de lhe pagar com usura suas visitações."

Em quanto este dialogo se passava entre o heroe de Aljubarrota e a sua poderosa alliada, Martim Vasques tinha posto tudo a ponto; e dando as suas ordens da porta, as primeiras pancadas de martello, batendo nos simples, resoaram pelo ambito da casa capitular. Fez-se um grande silencio e todos os olhos se cravaram em Martim Vasques.

Passada uma hora, aquelle montão de vigas, barrotes, taboas, cambotas, cabrestantes, reguas e travessas tinha passado pela crasta fóra em collos de homens: os presos tinham sido postos em liberdade, com grande raiva da tia Brites ao vêr ir soltos os bésteiros castelhanos; e só no centro da ampla quadra se via uma pedra, sobre a qual, mudo e com a cabeça pendida para o peito, estava assentado um velho.

A este velho rogava elrei, rogavam frades, rogava o povo, sem todavia se atreverem a entrar, que saisse d'alli; mas elle não lhes respondia nada. Desenganados, emfim, foram-se pouco a pouco retirando da crasta, onde ao pôr do sol começou a bater o luar de uma formosa noite de Maio.

Três dias se passaram assim. Mestre Affonso, assentado sobre a pedra fria, nem se quer cedêra ás rogativas de Anna Margarida, que, obrigada pela boa amizade que tinha a seu amo, se atrevêra a cruzar os perigosos umbraes do capitulo, para vêr se o movia a tomar alguma refeição: tudo recusou o cégo: a sua resoluçào era inabalavel. Também a abobada estava firme, como se fôra de bronze. No terceiro dia á tarde elrei, que tinha passado o tempo em aparelhar-se para a guerra com actos de piedade, desceu á crasta acompanhado de Fr. Lourenço e de outros frades, e chegando á porta do capitulo viu Martim Vasques e Anna Margarida juncto á pedra fria de Affonso Domingues, e este pallido e com as palpebras cerradas encostado nos braços delles.