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Inigo acordou alta noite: tinha dormido algumas horas; ao menos elle assim o cria. Olhou para o céu, viu estrellas: apalpou ao redor, achou terra: escutou, ouviu ramalhar as arvores.

Pouco a pouco é que se foi recordando do que passára com sua malaventurada mãe; porque a principio não se lembrava de nada.

Pareceu-lhe então ouvir respirar ali perto: affirmou a vista: era o onagro Pardalo.

"Já agora meio enfeitiçado estou eu—pensou elle:—corramos o resto da aventura, a vêr se posso salvar meu pae."

E pondo-se em pé encaminhou-se para o valente animal, que já estava enfreado e sellado: cujos eram os arreios, isso sabia-o o diabo.

Hesitou, todavia, um momento: tinha seus escrupulos—a boas horas vinham elles—de cavalgar naquelle corredor infernal.

Então ouviu nos ares uma voz vibrada, que cantava mui entoado: era a voz da terrivel Dama Pé-de-Cabra:

Cavalga, meu cavalleiro,
No alentado corredor;
Vae salvar o bom senhor;
Vae quebrar seu captiveiro.

Pardalo, não comerás
Nem cevada nem aveia,
Não terás jantar nem ceia,
Rijo e leve voltarás.