"Tudo vos devo, senhor,—atalhou o bispo—salvo minha alma que pertence a Deus, minha fé que devo a Christo, e a minha obediencia que guardarei ao papa."
"D. Bernardo! D. Bernardo!—disse o principe suffocado em colera—lembrae-vos de que affronta que se me fizesse, nunca ficou sem paga!"
"Quereis, senhor infante, soltar vossa mãe?"
"Não! Mil vezes não!"
"Guardae-vos!"
E o bispo saíu sem dizer mais palavra. Affonso Henriques ficou pensativo por algum tempo; depois falou em voz baixa com Lourenço Viegas o Espadeiro, e encaminhou-se para a sua camara. D'ahi a pouco o alcacer de Coimbra jazia, como o resto da cidade, no mais profundo silencio.
3
Pela alvorada, muito antes de romper o sol no dia seguinte, Lourenço
Viegas passeava com o principe na sala d'armas do paço mourisco.
"Se eu proprio o vi, montado na sua boa mula, ir lá muito ao longe, caminho da terra de Sancta Maria[2]! Na porta da sé estava pregado um pergaminho com larga escriptura, que, segundo me affirmou um clerigo velho que ahi chegára quando eu olhava para aquella carta, era o que elles chamam o interdicto.—Isto dizia o Espadeiro, olhando para todos os lados, como quem receiava que alguem o ouvisse.
"Que receias, Lourenço Viegas? Dei a Coimbra um bispo que me excommunga, porque assim o quiz o papa: dar-lhe-hei outro que me absolva, porque assim o quero eu. Vem comigo á sé. Bispo D. Bernardo, tarde será o arrepender-te da tua ousadia!"