"Esse que vós dizeis;—bradou o infante, cheio de colera—esse jamais o será. Tirar-me quiz elle o nome de filho de Deus; eu lhe tirarei o nome de seu vigario. Juro que nunca em meus dias porá D. Bernardo pés em Coimbra: nunca mais da cadeira episcopal ensinará um rebelde a fé das sanctas escripturas! Elegei outro: eu approvarei vossa escolha."
"Senhor, bispo havemos. Não cabe ahi nova eleição:—repetiu o adayão.
"Amen:"—responderam os mais.
O furor de Affonso Henriques subiu de ponto com esta resistencia:—"Pois bem!"—disse elle, com a voz presa na garganta, depois de um olhar terrivel que lançou pela assembléa, e de alguns momentos de silencio.—"Pois bem! Saí d'aqui, gente orgulhosa e má! Saí, vos digo eu. Alguem por vós elegerá um bispo…"
Os conegos, fazendo profundas reverencias, encaminharam-se para as suas cellas, ao longo das arcarias da crasta.
Entre os que alli se achavam, um negro, vestido de habitos clericaes, tinha estado encostado a um dos pilares, observando aquella scena: os seus cabellos revoltos contrastavam pela alvura com a pretidão da tez. Quando o principe falava, elle sorria-se e meneava a cabeça como quem approvava o dicto. Os conegos começavam a retirar-se, e o negro ía apoz elles. Affonso Henriques fez-lhe um signal com a mão. O negro voltou para trás.
"Como has nome?"—perguntou-lhe o principe.
"Senhor, hei nome Çolleima.[3]"
"És bom clerigo?[4]"
"Na companhia não ha dous que sejam melhores."