"A la fé—disse Mem Moniz—-que a festa de vossos annos, senhor Gonçalo Mendes, será mais de mancebo cavalleiro, que de capitão encanecido e prudente. Deu-vos elrei esta frontaria de Béja para bem a haverdes de guardar, e não sei eu se arriscado é saír hoje á campanha, que dizem os escutas, chegados ao romper d'alva, que o famoso Almoleimar corre por estes arredores com dez vezes mais lanças do que todas as que estão encostadas nos lanceiros desta sala de armas."

"Voto a Christo—atalhou o Lidador—que não cria eu que o senhor rei me houvesse posto nesta torre de Béja para estar assentado á lareira da chaminé, como uma velha dona, a espreitar de quando em quando por uma séteira, se cavalleiros mouros vinham correr té a barbacan, para lhes cerrar as portas, e ladrar-lhes do cimo da torre da menagem, como usam os villãos. Quem achar que são duros de mais os arnezes dos infiéis póde ficar-se aqui."

"Bem dicto! bem dicto!"—clamaram, dando grandes risadas, os cavalleiros mancebos.

"Por minha boa espada!"—gritou Mem Moniz, atirando com o guante-ferrado ás lageas do pavimento—"que mente pela gorja quem disser que eu ficarei aqui, havendo dentro de dez leguas em redor lide com mouros. Senhor Gonçalo Mendes, podeis montar em vosso ginete, e veremos qual das nossas lanças bate primeiro em adarga mourisca."

"A cavallo, a cavallo!"—gritou outra vez a chusma, com grande alarido.

D'alli a pouco ouvia-se o retumbar dos sapatos de ferro de muitos cavalleiros descendo os degraus de marmore da torre de Béja, e passados alguns instantes soava só o tropear dos cavallos atravessando a ponte levadiça das fortificações exteriores, que davam para a banda da campanha, por onde costumava apparecer a mourisma.

2

Era um dia do mez de Julho, duas horas depois da alvorada, e tudo estava em grande silencio dentro da cerca de Béja: batia o sol nas pedras esbranquiçadas dos muros e torres que a defendiam: ao longe, pelas immensas campinas, que avizinham o teso, sobre que a povoação está assentada, viam-se ondear as searas maduras, cultivadas por mãos de agarenos para seus novos senhores christãos. Regados por lagrymas de escravos tinham sido esses campos quando em formoso dia de inverno os sulcou o ferro do arado; por lagrymas de servos seriam outra vez humedecidos, quando no mez de Agosto a paveia, cerceada pela fouce, pendesse sobre a mão do ceifeiro: chôro de amargura havia ahi, como cinco seculos antes o houvera: então de christãos conquistados, hoje de mouros vencidos. A cruz basteava-se outra vez sobre o crescente quebrado; os corucheus das mesquitas convertiam-se em campanarios de sés, e a voz do almuhaden trocava-se por toada de sinos, que chamavam á oração entendida por Deus. Era esta a resposta dada pela raça goda aos filhos d'Africa e do Oriente, que diziam mostrando os alfanges:—"é nossa a terra de Hespanha."—O dicto do arabe foi desmentido; mas a resposta gastou oito seculos a escrever-se: Pelaio entalhou com a espada a primeira palavra della nos cerros das Asturias; a ultima gravaram-na Fernando e Isabel com os pelouros de suas bombardas nos pannos das muralhas da formosa Granada: e a esta escriptura, estampada em alcantis de montanhas, em campos de batalha, nos portaes e torres dos templos, nos lanços dos muros das cidades e castellos, accrescentou no fim a mão da providencia:—"assim para todo o sempre!"

Nesta lucta de vinte gerações andavam lidando as gentes do Alemtejo. O servo mouro olhava todos os dias para o horisonte, onde se enxergavam as serranias do Algarve: de lá esperava elle salvação, ou ao menos vingança; ao menos um dia de combate, e corpos de christãos estirados na veiga para pasto dos açores bravios. A vista do sangue enxugava-lhes por algumas horas as lagrymas, embora os valentes d'Africa houvessem de fugir vencidos; embora as aves de rapina tivessem tambem abundante ceva em cadaveres de seus irmãos! E este ameno dia de julho devia ser um desses dias porque suspirava o servo ismaelita.

Almoleimar descêra com seus cavalleiros ás campinas de Béja. Pelas horas mortas da noite viam-se as almenáras das suas atalaias nos pincaros das serras remotas, semelhantes ás luzinhas, que em descampados e tremedaes accendem as bruxas em noites de seus folguedos; bem longe éstavam as almenáras, mas bem perto sentiam os escutas o resfolegar e o tropear de cavallos, e o ranger de folhas seccas, e o tinir a espaços de alfange batendo em ferro de canelleira, ou de coxote. Ao romper d'alva os cavalleiros do Lidador saíam mais de dous tiros de bésta alem das velhas muralhas de Béja; tudo, porém, estava em silencio, e só aqui e alli as searas calcadas davam rebate de que por aquelles sitios tinham vagueado almogaures mouros, como o leão do deserto rodeia pelo quarto de modorra as habitações dos pastores alem das encostas do Atlas.