Como uma longa fita de muitas côres, recamada de fios d'ouro, e reflectindo ao longe mil accidentes de luz, a extensa e profunda linha dos cavalleiros mouros sobresaía na veiga entre as searas pallidas que cubriam o campo: defronte delles os trinta cavalleiros portuguezes, com trezentos homens d'armas, pagens, e escudeiros cubertos dos seus escuros involtorios, e lanças em riste, esperavam o brado de accommetter. Quem visse aquelle punhado de christãos, diante da copia d'infiéis que os esperavam, diria que, não com brios de cavalleiros, mas com fervor de martyres, se offereciam a desesperado trance. Porém, não pensava assim Almoleimar, nem os seus soldados, que bem conheciam a têmpera das espadas e lanças portuguezas, e a rijeza dos braços que as meneavam. De um contra dez devia ser o eminente combate; mas se havia ahi algum coraçâo que batesse descompassado, algumas faces descoradas, não era entre os companheiros do Lidador que tal coração batia ou que taes faces descoravam.

Pouco a pouco a planura que separava as duas hostes tinha-se embebido debaixo dos pés dos cavallos, como no torculo se embebe a folha de papel saindo para o outro lado convertida em estampa primorosa. As lanças iam feitas: o Lidador bradára Sanctiago; e o nome de Allah soára em um só grito por toda a fileira mourisca.

Encontraram-se! Duas muralhas fronteiras, balouçadas por violento terremoto, desabando, não fariam mais ruido, ao bater em pedaços uma contra a outra, que este recontro de infiéis e christãos: as lanças topando em cheio nos escudos tiravam delles um som profundo, que se misturava com o estalar das que voavam despedaçadas. Do primeiro encontro muitos cavalleiros vieram ao chão: um mouro robusto foi derribado por Mem Moniz, que lhe falsou as armas, e traspassou o peito com o ferro de sua grossa lança.

Deixando-a depois cahir, o velho desembainhou a espada, e gritou ao Lidador, que perto delle estava:

"Senhor Gonçalo Mendes, alli tendes, no peito daquelle perro, aberta a séteira por onde eu, velha dona assentada á lareira, costumo vigiar a chegada de inimigos, para lhes ladrar como alcateia de villãos do cimo da torre de menagem."

O Lidador não lhe pôde responder. Quando Mem Moniz proferia as ultimas palavras, elle topára em cheio com o terrivel Almoleimar. As lanças dos dous contendores haviam-se feito pedaços, e o alfange do mouro cruzou-se com a boa toledana do Fronteiro de Béja.

Como duas torres de sete seculos, cujo cimento o tempo petrificou, os dous capitães inimigos estavam um defronte do outro, firmes em seus possantes cavallos: as faces pallidas e enrugadas do Lidador tinham ganhado a immobilidade que dá, nos grandes perigos, o habito de os affrontar: mas no rosto de Almoleimar divisavam-se todos os signaes de um valor colerico e impetuoso. Cerrando os dentes com força, descarregou um golpe tremendo sobre o seu adversario: o Lidador recebeu-o no escudo, onde o alfange se embebeu inteiro, e procurou ferir Almoleimar entre o fraldão e a couraça; mas a pancada falhou, e a espada desceu, faiscando, pelo coxote do mouro, que já desencravára o alfange. Tal foi a primeira saudação dos dous cavalleiros inimigos.

"Brando é o teu escudo, velho infiel; mais bem temperado é o metal do meu arnez. Veremos agora se na tua touca de ferro se embotam os fios deste alfange."

Isto disse Almoleimar, dando uma risada; e a cimitarra bateu em cima da cervilheira do Lidador com a mesma violencia com que bate no fundo do valle penedo desconforme desprendido do pincaro da montanha.

O Fronteiro vacillou, deu um gemido, e os braços ficaram-lhe pendentes: a espada ter-lhe-hia cahido no chão, se não estivesse presa ao punho do cavalleiro por uma cadeia de ferro: o ginete, sentindo as redeas frouxas, fugiu um bom pedaço pela campanha a todo o galope.