E o pagem ajudou-o a montar a cavallo.
Ei-lo vae o velho Fronteiro de Béja! Semelhava um espectro erguido de pouco em campo de finados: debaixo de muitos pannos involtos no braço e hombro esquerdo levava a propria morte; nos fios da espada, que a mão direita mal sustinha, levava porventura ainda a morte de muitos outros!
7
Para onde mais travada e accesa andava a peleja se encaminhou o Lidador. Os christãos affrouxavam diante daquella multidão d'infiéis, entre os quaes mal se enxergavam as cruzes vermelhas pintadas nas cimeiras dos portuguezes. Dous cavalleiros, porém, com vulto feroz, os olhos turvados de colera, e as armaduras crivadas de golpes, sustinham todo o peso da batalha. Eram estes o Espadeiro e Mem Moniz. Quando o Fronteiro assim os viu offerecidos a certa morte, algumas lagrymas lhe cahiram pelas faces, e esporeando o ginete, com a espada erguida abriu caminho por entre infiéis e christãos, e chegou aonde os dous, cada um com seu montante nas mãos, faziam larga praça no meio dos inimigos.
"Bem vindo, Gonçalo Mendes!—disse Mem Moniz.—Quizeste assistir comnosco a esta festa de morte? Vergonha era, de feito, que estivesses fazendo teu passamento, com todo o repouso, deitado lá na çaga, em quanto eu, velha dona, espreito os mouros com meu sobrinho juncto desta lareira…."
"Implacaveis sois vós outros, cavalleiros de Riba-Douro,"—respondeu o Lidador em voz sumida,—"que não perdoaes uma palavra sem malicia. Lembra-te Mem Moniz de que bem depressa estaremos todos diante do justo juiz."
"Velhos sois; bem o mostraes!"—acudiu o Espadeiro.—"Não cureis de vans porfias, mas de morrer como valentes. Demos nestes perros, que não ousam chegar-se a nós. Ávante, e Sanctiago!"
"Ávante, e Sanctiago!"—responderam Gonçalo Mendes e Mem Moniz: e os tres cavalleiros deram rijamente nos mouros.
8
Quem hoje ouvir recontar os bravos golpes que no mez de Julho de 1170 se deram na veiga da frontaria de Béja, nota-los-ha de fabulas sonhadas; porque nós homens corruptos e enfraquecidos por ocios e prazeres de vida afeminada, medimos por nosso animo e forças as forças e o animo dos bons cavalleiros portuguezes do seculo doze; e todavia esses golpes ainda soam através das eras nas tradições e chronicas, tanto christans como agarenas.