Os dias do padre prior corriam assim placidamente para o seu viver intimo, posto que o duro mister de parocho lhe entenebrecesse muitas vezes os horisontes da vida material. E que importava, se todos na aldeia lhe queriam bem; se todos o acatavam como a summa bondade, e o que não era menos, como a summa intelligencia da parochia? Até o barbeiro, o proprio barbeiro, homem entendido e grave em materias de eloquencia sagrada, não constava houvesse jámais torcido o nariz ás praticas e sermões do padre prior, que elle, com a mão sobre a consciencia, punha acima dos melhores de frei Timotheo, um fradalhão arrabido, cousa brava em gritarias ao divino, que por via de regra se incumbia das domingas de quaresma naquella freguezia e nas circumvizinhas com acceitação e applauso universal do auditorio, mas cuja fama era offuscada pelos periodos singelos do velho sacerdote, repassados de uncção, e daquella eloquencia de missionario, que, apesar de rude, lá vae fazer vibrar o coração do povo, afinado pela crença viva, como a harmonia que se tira das cordas de dous instrumentos accordes.

Agora por isso, o que será feito de frei Timotheo?! Era naquelle tempo um frade guapo e alentado! O que será feito delle? Se ainda vive, tiraram-lhe o burel e a corda de esparto, o seu capital; venderam-lhe o convento, o seu tonel de Diogenes; prohibiram-lhe o capuz e as sandalias, o seu direito inauferivel de andar trajado como lhe aprouvesse; e mandaram-no, desarmado de tudo isso, pedir para o mendigo a esmola que se dava ao burel, ao esparto, ao convento, ao capuz e ás sandalias. Bom passaporte para frei Timotheo transitar pela valla plebea do cemiterio nos braços morbidos e suavissimos da fome! Foi um progresso de civilisação, que se completou pelo lado moral com o augmento das loterias, das casas de cambio, e das traducções de novellas e dramas francezes. Bemaventurada a tão esperta nação que assim comprehende o progresso!

Duas cousas, porém, mais que as práticas e sermões, serviam para engrandecer e glorificar o padre prior, não só diante dos homens, mas tambem diante de Deus. Era a primeira o incansavel zêlo com que se applicava a apaziguar as rixas, a estabelecer a concordia domestica, a prégar o trabalho, a guerrear a embriaguez, e sobretudo a sanctificar pelo casamento as affeições illicitas: era a segunda o fervor modesto e o innocente luxo com que procurava celebrar as festas religiosas, principalmente a de S. Pantaleão, orago da freguezia, e de quem tanto os aldeiões como o velho presbytero criam affincadamente possuir o metacarpo da mão direita, o qual devia ser de outro sancto, ou não-sancto, se acreditarmos (eu cá pela minha parte acredito) os parochianos da sé do Porto, que se gabam de ter debaixo de chave S. Pantaleão in totum, sem lhe faltar dedo de pé nem de mão, quanto mais um metacarpo inteiro.

* * * * *

III

UMA ESCORREGADELA.

A proposito do que o padre prior era de casamenteiro ainda me lembra uma velha viuva, a senhora Perpetua Rosa (Deus lhe fale na alma!) que morava ao cabo do logar n'uma barraquinha á beira do rio muito caiada, com seu rodapé de vermelhão, e sombreada por cinco ou seis choupos que nasciam da agua. Tinha ella (a velha, não a barraquinha) uma filha, formosa rapariga, chamada Bernardina. Era uma das leiteiras mais desenxovalhadas de que se gabavam os arredores de Lisboa: bonita, que não havia mais dizer: alva como toalha de freira, airosa como pinheirinho de quatro annos. Uns poucos de rapazes da aldeia andavam doudos por ella. Nas noites dos domingos, em que havia dança e viola na casa da brincadeira[1], a tia Jeronyma, que era capaz de espreitar este mundo e o outro, mirando da sua rotula o que se passava á entrada da rustica sala do baile, pouco distante do presbyterio, notava que, apenas a Bernardina apparecia, os rapazes entravam após ella com muita mais furia e pressa do que pela manhan haviam corrido para a igreja ao ultimo toque da missa do dia. Antes d'isso já a boa da velha tinha reparado no modo por que elles se encostavam aos cajados para lados oppostos, em frente uns dos outros, nos motejos do cantar ao desafio, no pôr dos barretes á banda, nos olhares que mutuamente se lançavam, no pegarem em seixos e atirarem-nos a grande distancia a modo de competencia, sem dizerem palavra, como se cada um quizesse mostrar aos seus rivaes a robustez do proprio braço. D'isto tudo tirava a tia Jeronyma agouro de muita pancadaria,—"por amor daquella delambida—dizia a ama do prior em suas caridosas murmurações—que anda toda arrebicada por baralhotas, em quanto a pobre da mãe moureja todo o sancto dia ao sol e á neve naquelle rio, para ganhar um bocado de pão sem vergonha da cara. Havia de ser comigo!"

E o mais é que a tia Jeronyma não se enganava nas suas previsões. Chegou vespera de Reis: houve á noite brincadeira ou baile extraordinario: passou-se ahi tudo na melhor ordem: riu-se, tocou-se viola, dançou-se, cantou-se ao desafio, e cada qual se recolheu a esperar entre os lençoes os sanctos Reis magnos, designação popular dos magos do Oriente, cuja vinda a Bethlem se memora na Epiphania.

Houve, porém, nessa noite um saloio mais cortez, que esperou vestido e ao relento, no caminho da serra, a vinda dos tres sanctos personagens. Foi o Manuel da Ventosa, estendido com uma tremebunda e magnifica massada, de que esteve ido, a ponto de dar ao padre prior uma daquellas noitadas que suscitavam a colera da tia Jeronyma, e de que já acima fiz honrosa e especifica menção.

O Manuel da Ventosa era filho unico d'um moleiro ricaço, chamado Bartholomeu, velho honrado, mas avarento como seiscentos Satanáses. Teve a ventura (o rapaz, entende-se) de caír em graça á Bernardina. Amoricos d'aqui, amoricos d'acolá, janella na cara a um, respostas tortas a outro, segredar e rir de vizinhas, raivas de desprezados: somma total—zás, uma sova mestra no Manuel da Ventosa, por ter tido a negregada dita de merecer a preferencia daquella que era o enlevo de todos os corações.