"Ora, pois, socega, e não chores. Deixa o caso por minha conta.
Volte para casa, e não me torne a rondar pela beira do rio. Entende?
Olhe que!…"
O prior estendeu a bengala para o lado dos moinhos, que assobiavam lá no alto, e Manuel da Ventosa voltou cabisbaixo e a passos lentos pelo caminho por onde viera. Sentia confusamente que se aproximava a crise mais temerosa da sua vida.
Então o padre prior assentou-se outra vez no poial do cruzeiro, e recaíu em profunda meditação. Depois de um bom quarto de hora, poz-se em pé e encaminhou-se para o presbyterio. Tinha anoitecido. De memoria de homens nunca ceiára tão tarde!
E andando, o velho sacerdote repetia aquellas palavras do livro de Job, onde, entre parenthesis, ha mais philosophia que n'um aduar inteiro de philosophos:
Nudus egressus sum de utero matris meoe, et nudus revertar illuc[2].
O porque o dizia, bem o sabia elle! Ceiou sem dar palavra: resou o breviario: deitou-se, e apagou o candieiro. Contra o costume, Fr.
Bernardo de Brito e Fr. Diogo do Rosario ficaram aquelle serão na estante. A ama sentiu-o assoar-se, tomar tabaco, e escarrar até muito tarde. Cousa rara! signal evidente de que tinha negocio de vulto, que lhe embargava o dormir!
Peior foi pela manhan. Apenas luziu o buraco, o padre prior saltou da cama; calçou os sapatos engraixados; vestiu a loba nova; pediu o chapeu de tres ventos, a bengala de castão de prata, e os oculos fixos, que só punha em dias de missa cantada, e disse á ama que se aviasse com o almoço, porque tinha de saír cedo.
Emquanto a tia Jeronyma, para maior brevidade, fazia umas papas de milho, o prior abriu um contador enorme, destes que os nossos grandes amigos inglezes nos vão agora levando em logar de vinho do Porto, tirou para fóra uma folha de papel almasso, e bradou:
"Jeronyma! oh Jeronyma!"